Quarta-feira, 01 de dezembro de 2021

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Com chuvas e secas extremas, mudanças climáticas forçam migração e deslocamentos na América Latina

Marta Romero tem 48 anos e uma vida inteira testemunhando como se adaptar ao ataque do tempo. Em 1998, depois que o furacão Mitch varreu partes da América Central, incluindo seu vilarejo na costa atlântica da Guatemala, sua família teve de desistir das plantações de milho, feijão e café de que costumavam viver e começou a plantar cardamomo, uma erva que pensavam que iria crescer melhor e ser mais lucrativa.

Mais de 20 anos depois, em novembro de 2020, duas outras tempestades poderosas, Eta e Iota, devastaram sua comunidade e destruíram suas plantações e gado. Depois de anos de seca intensa, os campos de cardamomo não resistiram às chuvas e inundações deixadas por aqueles dois furacões, e a família teve de recomeçar do zero.

“Vamos ver se conseguimos recuperar um pouco, porque perdemos muito. A maior parte das terras férteis se foi, mas graças a Deus estamos lutando”, disse Romero. Nem todos resistiram. Um de seus filhos, de 24 anos, decidiu há algumas semanas buscar a sorte nos Estados Unidos.

“Eu não queria, mas ele me disse: ‘Mãe, vou embora porque a terra na Guatemala não é boa para trabalhar. Vou encontrar uma maneira de poder trabalhar em outro lugar”, concluiu.

Assim como o filho de Marta Romero, outros moradores de sua comunidade migraram no ano passado para os EUA ou para o departamento de Petén, no norte da Guatemala. A passagem dos furacões Eta, categoria 4, e Iota, categoria 5 (o máximo), deixou mais de 260 mortos em novembro de 2020 e afetou milhões de pessoas, que perderam casas e plantações no país, assim como Nicarágua e em outros lugares.

As caravanas de hondurenhos que se formaram em dezembro, apenas um mês depois, tornaram-se uma clara evidência do efeito que as tempestades mais poderosas e frequentes podem ter nas migrações.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que mais de 1 milhão de pessoas teve de se deslocar pelo impacto dessas duas tormentas. E há outros fenômenos mais progressivos e menos visíveis, como secas, elevação do nível do mar ou desertificação em algumas áreas, que se aceleram com o aquecimento global e também expulsam pessoas de suas comunidades por todo o continente.

Um relatório do Banco Mundial projeta que, até 2050, pode haver mais de 17 milhões de latino-americanos (2,6% dos habitantes da região ou o equivalente à população do Equador) deslocados pela mudança climática se não forem tomadas medidas concretas para conter seus efeitos. “Os migrantes climáticos sairão de áreas menos viáveis com pouco acesso à água e produtividade agrícola e de áreas afetadas pela elevação do nível do mar e tempestades”, diz o documento.

As áreas mais afetadas, acrescenta, são as mais pobres e vulneráveis. E não é necessário conjugar os verbos no futuro. A frequência e a intensidade dos fenômenos extremos já aumentaram, conforme destaca o Banco Mundial: “As chuvas de verão começam mais tarde e são mais irregulares no espaço e no tempo e sua intensidade aumentou.”

Pablo Escribano, especialista da OIM em migração climática, distingue ameaças gerais como inundações, chuvas e furacões, que afetam principalmente o Caribe, de ameaças progressivas como a seca, que atinge áreas tão distantes como o corredor seco da América Central, algumas da América do Sul, tais como a bacia do rio Paraná ou região andina.

“Há evidências de que as mudanças climáticas nas áreas de alta montanha têm um impacto muito importante no nível, por exemplo, da escassez de água. Muitas vezes dizemos que as ameaças relacionadas à mobilidade humana se devem ao excesso ou à falta de água. As estatísticas de deslocamento de desastres mostram que chuvas extremas e inundações são as que mais deslocam as pessoas. A questão da seca é muito relevante em áreas como o Corredor Seco da América Central, algumas áreas do México, centro do Chile ou nordeste do Brasil”, ressalta.

O continente também foi atingido nos últimos anos por incêndios intensos, como os que atingiram a Amazônia e o Pantanal no Brasil ou na costa oeste dos Estados Unidos, e por inundações em algumas áreas da bacia amazônica, sudeste do Brasil, Uruguai e na bacia do Río de la Plata.

Para quem trabalha no campo, a relação entre a mudança nos padrões de precipitação, insegurança alimentar e migração é evidente, especialmente nas áreas rurais.

“A mudança climática influencia nas chuvas erráticas que ocorrem e que obviamente afetam a colheita e as safras”, explica o engenheiro agrônomo hondurenho Carlos Ruiz.

“Se chover na época de floração de forma constante e adequada, teremos produção, mas normalmente o que tem acontecido na época de floração dessas lavouras, que geralmente fazem parte da cesta básica (como milho e feijão), é que temos esses fenômenos de seca que causam prejuízos”, afirma.

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