Segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 16 de agosto de 2026
A definição de candidatos a vice-presidente após as convenções partidárias revelou um cenário de chapas puro-sangue na maioria das candidaturas. Apenas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá coligação, formada por PT, PCdoB, PV, federação Psol-Rede, PDT e PSB. As demais candidaturas são compostas por candidatos e vices do mesmo partido, em um cenário inédito desde a redemocratização, em que, nas últimas nove eleições presidenciais, sempre houve mais de uma coligação.
Para a cientista política e professora da UFRJ, Mayra Goulart, a configuração reflete a redução dos “incentivos” dos partidos do chamado Centrão sobre o Poder Executivo. “Os incentivos para priorizar a eleição presidencial diminuíram. Com o fortalecimento das emendas parlamentares e do controle do Congresso sobre o Orçamento do Executivo, os partidos passaram a enxergar mais vantagens em ampliar suas bancadas do que em construir coligações nacionais”, afirma.
Na avaliação da pesquisadora, o aumento da participação do Congresso na definição e execução das emendas parlamentares reduziu a capacidade do Executivo de concentrar recursos e negociar apoio político por meio do Orçamento. Nesse sentido, ela avalia que as siglas também buscam preservar a neutralidade na disputa presidencial para apoiar candidatos diferentes em cada Estado, de acordo com os interesses regionais, em busca de bancadas cada vez maiores no Congresso e, assim, aumentar o poder de negociação com o próximo presidente.
Outro aspecto que chama a atenção é o fato de que, entre os quatro candidatos mais bem colocados nas pesquisas, todos têm homens como candidatos a presidente e a vice. Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) não escolheram mulheres para compor suas chapas, enquanto Lula mantém Geraldo Alckmin (PSB) como vice. O cenário contrasta com 2022, quando quatro mulheres disputaram a Presidência e outras quatro integraram chapas como candidatas a vice-presidente.
Para Mayra, porém, é preciso separar a representação feminina nas chapas da existência de uma agenda voltada às mulheres. “É preciso distinguir a representação descritiva, isto é, a presença de mulheres ocupando cargos, da existência de políticas voltadas às mulheres. É essa segunda dimensão que tende a ser mais avaliada pelo eleitorado feminino”, diz.
Na avaliação da cientista política, Lula parte de uma posição mais próxima desse eleitorado por representar um campo que historicamente incorporou essas pautas, enquanto a direita tende a adotar uma agenda mais conservadora sobre gênero e família.
Outra novidade, segundo Mayra, é a fragmentação da direita entre Flávio, Caiado, Zema e Renan. Para ela, porém, a divisão tende a ser superada em um possível segundo turno pela força do “antipetismo”.
“A direita está fragmentada no primeiro turno, mas existe uma tendência de aglutinação no segundo em torno do candidato que avançar. A força do antipetismo continua sendo um elemento importante para essa convergência”, afirma.
No campo da esquerda, a avaliação é diferente. Lula aparece como a principal liderança do espectro e, até o momento, não enfrenta uma candidatura competitiva capaz de disputar de forma significativa o mesmo eleitorado. Para Mayra, essa consolidação representa um dos principais trunfos do presidente na eleição de 2026. A concentração do campo em torno de sua candidatura reduz a necessidade de Lula negociar, ainda durante a campanha, com outras lideranças de esquerda para garantir a unidade do eleitorado. O cenário, no entanto, indica poucas possibilidades de aliança em um segundo turno contra a direita.
A situação contrasta com 2022, quando Lula precisou disputar espaço com outras candidaturas do campo progressista e, posteriormente, buscar o apoio de nomes como Simone Tebet (MDB), Ciro Gomes (PDT) e Soraya Thronicke (União Brasil) no segundo turno. (Com informações do Valor Econômico)