Terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Combinação explosiva de crise econômica, repressão violenta e enfraquecimento geopolítico alimenta protestos no Irã

A nova onda de protestos no Irã, que já dura cerca de duas semanas, é a culminação de uma crescente indignação social contra o regime teocrático que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. O estopim dos levantes, iniciados no final de 2025, é a grave crise econômica que corroeu o poder de compra do rial, acompanhada de índices de inflação e desemprego que tornaram insustentáveis as condições de vida para milhões de iranianos.

A partir de protestos de comerciantes localizados em Teerã, as manifestações se espalharam por todo o país, sobretudo em cidades como Mashhad, Isfahan e Shiraz. A pauta também se diversificou, unindo jovens, idosos, operários, estudantes, profissionais liberais e outros segmentos da sociedade em prol do restabelecimento das liberdades civis que há muito lhes foram tomadas à força pelos aiatolás.

A resposta do regime foi duríssima, como era esperado. Na quinta-feira passada, as autoridades iranianas impuseram um bloqueio total de acesso à internet no país, numa tentativa de interromper a articulação entre os manifestantes e impedir que informações sobre a brutal repressão aos protestos chegassem ao exterior. Debalde. Não só os relatos de violência vieram a público, como a asfixia motivou ainda mais as multidões.

Além das motivações econômicas, há um componente político incontornável a inflamar os protestos. O regime dá claros sinais de desgaste, seja pela idade avançada do aiatolá Ali Khamenei e pela incerteza em torno de sua sucessão, seja pelo descontentamento social acumulado ao longo de décadas de autoritarismo religioso – especialmente contra as mulheres.

Ademais, não se pode ignorar o contexto externo. O Irã tem enfrentado desafios geopolíticos significativos nos últimos anos, sobretudo desde 7 de outubro de 2023, quando o infame ataque do Hamas contra Israel deflagrou a guerra em Gaza. Embora não se possa responsabilizar diretamente Teerã pela ofensiva terrorista, o ataque irrompeu uma cadeia de eventos que alterou profundamente o equilíbrio regional. A reação militar de Israel e dos EUA obliterou a rede de alianças e grupos armados associados à projeção de poder do Irã no Oriente Médio.

Desde então, essa engrenagem desabou como um castelo de cartas. O enfraquecimento ou a destruição de grupos que fustigavam Israel e o Ocidente – entre eles o próprio Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no Líbano – reduziu sensivelmente a capacidade de dissuasão do regime iraniano. Somam-se a isso o desgaste provocado pela prolongada crise econômica e o consequente isolamento político, fatores que minaram a aura de poder que o regime cultivava para intimidar inimigos mundo afora e seus próprios cidadãos.

Dito isso, não se pode afirmar, ao menos por ora, que os protestos configuram uma revolução capaz de derrubar o aiatolá e promover uma transformação constitucional profunda. As forças de segurança continuam fortes nas ruas, controlam grandes centros urbanos e ainda dispõem de recursos consideráveis para sufocar qualquer dissidência. A ausência de uma liderança de oposição reconhecida por todo o país também limita a capacidade dos protestos de transformar indignação social em força política transformadora.

Contudo, é inegável que algo significativo está em curso no Irã. A atual onda de protestos combina insatisfação econômica generalizada, crítica corajosa às barbaridades do regime e participação social mais ampla, sem restrições de gênero ou faixa etária, segundo consta. O bloqueio da internet e a repressão violenta podem até fragmentar o movimento, mas não parecem ter dissuadido uma parcela considerável da população iraniana de desafiar abertamente o regime.

É cedo para antever quais desdobramentos concretos essa mobilização produzirá a curto ou médio prazos. A história recente do Irã recomenda cautela diante de prognósticos precipitados. O regime já sobreviveu a várias ondas de protestos desde 1979. Ainda assim, os sinais de seu desgaste são evidentes. A persistência dos protestos, a ampliação de sua base social e a disposição de desafiar a repressão indicam que a teocracia enfrenta uma contestação interna que, se ainda não pode ser vista como uma ruptura revolucionária, expõe as fissuras na estrutura de poder dos aiatolás. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)

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