Sábado, 07 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 6 de fevereiro de 2026
Em plenas férias, já não há desculpas: sobra tempo para acordar sem pressa, não é preciso trabalhar nem levar as crianças à escola, e abundam os momentos de lazer para encontrar amigos e se divertir. No entanto, na mesma equação costumam aparecer horários desorganizados, jantares depois das 22h, maior consumo de álcool e uso excessivo de telas — todos fatores que, paradoxalmente, atentam contra o tão desejado descanso.
Trata-se de um dilema nada pequeno, se levarmos em conta que estudos publicados pela revista científica Occupational Environmental Medicine revelam que a falta de sono pode se equiparar ao efeito do álcool em termos de prejuízo cognitivo.
Além disso, as sociedades acadêmicas de saúde destacam o bom descanso como um dos pilares da longevidade: melhora o humor e o sistema imunológico e permite que o cérebro e o corpo funcionem corretamente. Isso porque, durante o sono noturno, o organismo realiza sua limpeza mais profunda: elimina toxinas, consolida memórias e remove resíduos metabólicos.
“As pessoas acreditam que, ao dormir mais horas durante as férias, podem recuperar o sono perdido ao longo do ano, mas isso, na prática, é quase impossível de alcançar”, explica Pablo Ferrero, médico especialista em medicina do sono. “Elas vão dormir mais horas e cobrir necessidades que deveriam ter sido atendidas durante o ano. No entanto, o fato é que o corpo já se adaptou a esses hábitos nocivos e a qualidade de vida provavelmente está afetada”, aprofunda.
Arturo Garay, médico responsável pela Medicina do Sono, faz uma ressalva e explica que a evidência acadêmica indica que pode haver, sim, uma recuperação parcial do sono durante as férias, mas apenas se, nos meses anteriores, o déficit tiver sido moderado. “Em contrapartida, se a privação foi crônica, não será possível uma restauração completa”, afirma.
Para ambos os especialistas, alguns erros frequentes cometidos nas férias – e que pioram a qualidade do descanso são: ter horários desorganizados; dormir sestas longas; consumir álcool; jantar tarde e de forma pesada; aumentar a estimulação noturna com telas como televisão e celulares; adormecer em quartos com excesso de calor, luz ou ruído; e desenvolver rotinas totalmente novas.
Alguns desses comportamentos alteram a ritmicidade biológica e produzem atrasos de fase transitórios no sono, explica Garay. Ou seja, o relógio interno da pessoa não está em sincronia com o ambiente.
Os momentos de tranquilidade e silêncio, sem telas, são a base para uma boa higiene do sono nas férias.
Modo férias
“Estar mentalmente conectado ao trabalho durante as férias mantém o sistema de estresse ativado, mesmo que o corpo esteja em repouso. Isso dificulta pegar no sono e alcançar um descanso profundo”, acrescenta a neurologista Sol Segura Matos, especialista nessa área.
Garay afirma que esse tipo de comportamento acaba exigindo um esforço maior de adaptação comportamental ao trabalho, o que resulta em fadiga e redução da qualidade do sono. Uma alternativa viável e menos nociva, sugere, é estabelecer janelas curtas de trabalho, por exemplo, conectar-se por 30 minutos para assuntos inadiáveis e depois desconectar. Outra diretriz saudável é colocar aplicativos de trabalho, como e-mails, chats e plataformas de projetos, em modo férias.
Em sintonia, um estudo de 2023 realizado pelo Observatório de Psicologia Social Aplicada da Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires (UBA) indicou que, entre 3.141 pessoas entrevistadas, 45% apresentavam algum tipo de problema para dormir, com efeitos como maior irritabilidade, dificuldades de concentração, memória e aprendizagem, além de diminuição da resposta imunológica.
“Uma má higiene do sono está associada a diversos problemas de saúde a longo prazo. Os mais frequentes são transtornos metabólicos ou mentais e doenças cardiovasculares”, sintetiza o diretor do Instituto de Neurologia Buenos Aires, Alejandro Andersson.
Outra pesquisa, desta vez da Universidade de San Andrés e publicada no The European Journal of Health Economics, revela que as consequências do mau descanso não afetam apenas a qualidade de vida dos argentinos, mas também a economia do país. Segundo a publicação, a Argentina poderia aumentar seu Produto Interno Bruto (PIB) em até 1,27% se a população dormisse entre 7 e 9 horas por noite, em vez das 6 ou 7 horas que se dorme, em média, atualmente. Dormir pouco, descobriram, implica maior risco de doenças, acidentes de trabalho e maior absenteísmo.
Manter horários regulares para acordar e receber luz natural pela manhã são algumas das orientações que os especialistas destacam para melhorar o descanso.