Quarta-feira, 07 de janeiro de 2026

Como Trump escolheu a chavista Delcy Rodríguez como nova líder da Venezuela após captura de Maduro

Semanas antes da operação que resultou na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, autoridades dos EUA já haviam se decidido por uma candidata aceitável para substitui-lo após sua deposição — pelo menos temporariamente: a vice-presidente Delcy Rodríguez. A líder chavista, uma aliada de Maduro, impressionou funcionários do presidente americano, Donald Trump, com sua gestão da crucial indústria petrolífera venezuelana. Pessoas envolvidas nas discussões disseram que intermediários convenceram o governo de que ela protegeria e defenderia futuros investimentos americanos no setor de energia do país.

— Venho acompanhando a carreira dela há muito tempo, então tenho uma noção de quem ela é e do que ela representa — disse um alto funcionário dos EUA, referindo-se a Delcy. — Não estou alegando que ela seja a solução permanente para os problemas do país, mas ela certamente é alguém com quem achamos que podemos trabalhar em um nível muito mais profissional do que conseguíamos com ele.

As frequentes aparições públicas de Maduro, somada a outras demonstrações de indiferença, ajudaram a convencer integrantes da equipe de Trump de que o presidente venezuelano estava zombando deles, tentando pagar para ver o que ele acreditava ser um blefe, segundo duas das pessoas, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizadas a discutir as conversas confidenciais. Na semana passada, Maduro desdenhou da então mais recente escalada dos EUA — um ataque a um cais que os EUA afirmaram ser usado para o tráfico de drogas —, dançando ao som de uma batida eletrônica na televisão estatal, enquanto sua voz gravada repetia em inglês: “No crazy war” (Sem guerras loucas). Antes, havia recusado uma proposta de exílio na Turquia.

Assim, a Casa Branca decidiu levar adiante suas ameaças militares.

A opção por permitir a posse de Delcy foi uma escolha fácil, disseram as fontes. Trump não simpatiza com a líder da oposição María Corina Machado, que organizou uma campanha presidencial vitoriosa em 2024, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz no ano passado. No sábado, Trump disse que aceitaria Delcy, afirmando que a opositora carecia do “respeito” necessário para governar a Venezuela.

Autoridades americanas afirmam que o relacionamento com o governo interino será baseado na capacidade dela de jogar conforme as regras deles, acrescentando que reservam-se ao direito de tomar medidas militares adicionais caso não respeite os interesses dos EUA. Em uma declaração neste domingo, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que Washington irá trabalhar com as atuais lideranças da Venezuela se elas tomarem “as decisões certas”.

— Vamos julgar tudo pelo que fizerem, e vamos ver o que fazem — disse Rubio no programa Face the Nation, da CBS News. — Eu sei o seguinte: se não tomarem as decisões certas, os EUA manterão diversas ferramentas de pressão.

Trump declarou no sábado que os EUA pretendem “administrar” a Venezuela por um período indeterminado e recuperar os interesses petrolíferos dos EUA, uma afirmação extraordinária de poder unilateral e expansionista após argumentos mais estreitos — e também contestados — sobre interromper o fluxo de drogas.

Aposta em chavista

Com Delcy, o governo Trump estaria se envolvendo com uma líder do governo que repetidamente rotulou como ilegítimo, ao mesmo tempo em que abandona María Corina — além de não estar claro, imediatamente, se Delcy sequer colaboraria. Em um pronunciamento na televisão, ela acusou os EUA de realizarem uma invasão ilegal e afirmou que Maduro continua sendo o líder legítimo da Venezuela.

Para manter o poder de pressão, altos funcionários americanos disseram que as restrições dos EUA às exportações de petróleo venezuelano permanecerão em vigor por enquanto. Outros envolvidos nas negociações expressaram esperança de que o governo pare de deter petroleiros e emita mais licenças para que empresas dos EUA trabalhem no país, a fim de reanimar a economia e dar a Delcy uma chance de sucesso político.

A vice-presidente de 56 anos chega ao posto de líder interina da Venezuela com as credenciais de uma solucionadora de problemas econômicos que orquestrou uma mudança no país: de um socialismo corrupto para um capitalismo laissez-faire igualmente corrupto.

Ela é filha de um guerrilheiro marxista que ganhou fama por sequestrar um empresário americano. Foi educada em parte na França, onde se especializou em direito trabalhista, e ocupou cargos de médio escalão no governo do predecessor de Maduro, Hugo Chávez, antes de ser promovida a cargos maiores com a ajuda de seu irmão mais velho, Jorge Rodríguez, que acabou se tornando o principal estrategista político de Maduro. Com informações do portal O Globo.

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