Sexta-feira, 06 de novembro de 2026

Congresso paraguaio ignora pedido de renúncia e dá continuidade a processo de impeachment contra Santiago Peña

O Congresso do Paraguai decidiu dar continuidade ao processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña, apesar de ele ter anunciado sua renúncia ao cargo nesta quinta-feira (5). A Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade o pedido de destituição, com 78 votos favoráveis e nenhum contrário. O Senado paraguaio marcou uma nova sessão para esta sexta-feira (6), às 10h.

A crise política foi desencadeada pelo colapso do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras do país, que teve suas atividades interrompidas após uma intervenção do Banco Central paraguaio. A instituição atendia aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos vinculados a órgãos estatais e ao sistema de previdência.

A paralisação dos serviços bancários deixou milhares de correntistas sem acesso ao próprio dinheiro, provocou protestos e aumentou a pressão sobre o governo. A oposição passou a responsabilizar Peña pela crise, apontando possíveis conflitos de interesse e favorecimento à instituição financeira.

O presidente foi acionista do grupo empresarial que controlava o Ueno Bank até março de 2025. Os parlamentares que apresentaram o pedido de impeachment afirmam que houve decisões regulatórias supostamente favoráveis à instituição, além da concentração de recursos previdenciários no banco em desacordo com limites previstos na legislação.

Entre as acusações também estão suspeitas de manipulação regulatória e encobrimento institucional. Peña nega irregularidades e afirma que os responsáveis por eventuais crimes deverão responder perante a Justiça.

A votação na Câmara ocorreu mesmo depois de o presidente anunciar que deixaria o cargo. Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, Peña afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas.

O Congresso, entretanto, não concluiu a análise do pedido de renúncia. Uma sessão conjunta convocada para deliberar sobre o assunto foi suspensa depois que parlamentares governistas deixaram o plenário, impedindo a formação do quórum necessário para a votação. Com isso, a situação institucional do presidente permaneceu sem uma definição formal.

A oposição defende que o processo de impeachment seja concluído antes de qualquer aceitação da renúncia. O objetivo é evitar que Peña deixe o cargo e obtenha as prerrogativas previstas na Constituição paraguaia para ex-presidentes. Pela legislação do país, os antigos chefes de Estado passam a ocupar uma cadeira de senador vitalício, sem direito a voto, mas com imunidade parlamentar.

Caso seja destituído por impeachment, Peña não terá direito a essa condição. A diferença é considerada importante porque o Ministério Público abriu investigações criminais relacionadas à crise bancária, incluindo a atuação de autoridades na fiscalização da instituição e a destinação de recursos públicos.

O escândalo também provocou mudanças na estrutura do governo. O presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, deixou o cargo, enquanto executivos e pessoas ligadas ao Ueno Bank passaram a ser investigados. Oito dirigentes da instituição foram alvo de mandados de prisão, e 27 pessoas foram formalmente acusadas em procedimentos relacionados ao caso.

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