Segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 23 de fevereiro de 2026
Após ter sido apontada como uma das principais pressões sobre a inflação no ano passado, a energia elétrica deve voltar a pesar no orçamento das famílias em 2026 e encerrar o ano com alta acima do índice oficial de preços. Consultorias e bancos projetam reajustes entre 5,1% e 7,95%, diante de reservatórios em níveis abaixo da média histórica, maior acionamento de usinas termelétricas e crescimento dos subsídios embutidos na conta de luz. Para 2026, estão previstos R$ 47,8 bilhões em subsídios ao setor elétrico, 17,7% a mais que em 2025.
Projeção da consultoria PSR indica que a tarifa residencial pode subir cerca de quatro pontos percentuais acima da inflação, alcançando 7,95%. O mercado estima IPCA de 3,95%, segundo o último boletim Focus. O impacto, porém, pode variar por região, com possibilidade de reduções pontuais em algumas áreas e aumentos mais expressivos em outras.
Segundo o diretor-presidente da PSR, Luiz Augusto Barroso, “os fatores que atuam para elevar a conta de luz são o custo de acionamento das térmicas, o risco hidrológico pago em contratos com hidrelétricas e o acionamento de bandeiras tarifárias. Todos tendem a se agravar em cenário hidrológico desfavorável e forte demanda, por exemplo, devido ao aumento da temperatura”.
O cálculo considera reajustes anuais das distribuidoras, impostos, encargos e o sistema de bandeiras tarifárias, que estabelece cobrança adicional quando há uso de fontes mais caras, como as termelétricas, geralmente em períodos de estiagem. Atualmente, vigora a bandeira verde, sem taxa extra. No ano passado, entre junho e novembro, o sistema operou em bandeira vermelha nos patamares 1 e 2, este último o de maior custo.
A possível transição do fenômeno La Niña para o El Niño, que aquece as águas do Pacífico e pode provocar seca no Norte e Nordeste, é apontada como fator de risco para o cenário hidrológico.
O economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano, projeta alta de 5,1% na conta de luz, cerca de 1,15 ponto percentual acima da inflação esperada. Ele ressalta que o clima será determinante. “Nossa projeção considera bandeira amarela em dezembro, mas, se o ano terminar em bandeira vermelha patamar 2, a alta pode chegar a cerca de 12%”, afirma.
Na última reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, foi destacado que as chuvas no início do ano ficaram acima da média, elevando os níveis dos reservatórios. Na sexta-feira mais recente, o armazenamento estava em 54,8% no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, 45% no Sul, 64,8% no Nordeste e 63,8% no Norte, patamar considerado satisfatório no Sistema Interligado Nacional.
O Ministério de Minas e Energia informou que o Operador Nacional do Sistema Elétrico seguirá monitorando as condições hidrológicas, especialmente na bacia do Rio Paraná e na Região Sul. Ainda assim, especialistas alertam que o início do período seco pode exigir maior uso de térmicas.
Outro fator de pressão é a Conta de Desenvolvimento Energético, fundo que financia subsídios como descontos para baixa renda e produtores rurais. Levantamento da Abraceel mostra que, nos últimos 15 anos, a conta de luz subiu 177%, ante inflação acumulada de 122%.
Em 2025, a energia elétrica residencial avançou 12,31%, segundo o IBGE, sendo o item de maior impacto no IPCA, que fechou o ano em 4,26%. Parte da alta foi compensada por R$ 2,2 bilhões em descontos viabilizados com recursos da usina de Itaipu. O custo do megawatt-hora atingiu R$ 786,76, o maior nível desde 2011.
Para Serrano, “o aumento dos preços de energia impacta negativamente os custos de produção e eleva o custo de vida das famílias”.
(Com O Globo)