Terça-feira, 07 de dezembro de 2021

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Cooperar ou sucumbir

Thomas Friedman, articulista do The New York Times, em artigo recente, rememora uma pergunta que o presidente Ronald Reagan teria feito a Mikhail Gorbachev, então líder soviético, durante uma caminhada em Genebra, por ocasião de uma reunião de líderes mundiais. “O que você faria se os Estados Unidos fossem atacados por alienígenas? Você nos ajudaria? Indagou Reagan para um surpreso Gorbachev. Claro que sim, teria sido a resposta. Haveria ajuda mútua, pois o inimigo era desconhecido e representava um risco comum. Até aqui, tudo se encaixa dentro de uma lógica cristalina, atendendo a um imperativo de bom senso, ancorado no princípio de cooperação que deveria ser a regra, mas não é. A questão climática, a pobreza extrema e a imigração são exemplos chocantes de como é difícil o exercício colaborativo em assuntos que ameaçam a sobrevivência da humanidade, mas não encontram um ponto de convergência capaz de forjar um acordo amplo e eficaz. Ainda que a janela para que seja evitado um cataclisma climático esteja cada vez mais estreita, ainda que milhões de seres humanos passem fome enquanto sobram alimentos, e outros milhões de refugiados padeçam ao relento, submetidos às mais duras privações, a incapacidade de um entendimento perdura e ofende a própria dignidade de nossa existência, revelando tragicamente a força do egoísmo e a ausência de empatia e solidariedade.

O paradigma de competição extremada contrasta diametralmente com a necessidade de maior cooperação. Estamos vivendo numa era cujos pressupostos são alavancados pelo senso de urgência, inovação e mudanças culturais, simultaneamente a uma revolução tecnológica sem precedentes. Nesse contexto, emergem prioridades domésticas, ensimesmadas, que angariam apoio político ao tempo em que reforçam o protecionismo, barreiras de toda espécie e um maior isolamento. Esses muros, muitos invisíveis, impedem maior integração entre os países, atrasam acordos mútuos e conferem cores dramáticas às questões que demandam maior prioridade, a exemplo da urgentíssima questão ambiental. Nessa área, as assimetrias entre os países impedem que avancemos com maior velocidade na redução dos níveis de poluição por dióxido de carbono, sob a alegação de que o freio ao crescimento chegou antes do progresso ter se estabelecido. No mesmo diapasão, países pobres enfrentam enormes dificuldades com a miséria, a fome e a violência, ao tempo em que nações desenvolvidas erguem muros para impedir hordas de refugiados em seus domínios. Como se isso não bastasse, a ONU, bem como os demais órgãos multilaterais têm se mostrado incapazes de promover a concertação que o planeta reclama.

Em recente declaração, Elon Musk, dono da Tesla, e de uma fortuna estimada em mais de U$ 300 bilhões, afirmou estar disposto a alienar parte de suas ações para acabar com a fome no mundo. O comentário teria sido uma resposta ao Diretor da ONU, David Beasley, que disse ser possível salvar 42 milhões de vidas com um aporte na ordem de U$ 6 bilhões. Mais do que a declaração em si, a notícia evoca novamente como é, ao mesmo tempo, abissal e tênue, a distância entre os desafios humanitários e as amplas possibilidades de resolução dos mesmos. Entre esses polos, existe a necessidade de exercitarmos a aproximação, o entendimento e a cooperação. Foi a capacidade de interagir, de ouvir, de ceder e formar consensos, por menores que fossem, que possibilitou ao ser humano não apenas conviver em bandos nas savanas africanas, mas evoluir mediante as diversas revoluções que forjaram a sociedade moderna, arquitetando o acordo legal que nos governa. Seres gregários que somos, deparamo-nos hoje com a mais contundente e inescapável escolha: cooperar ou sucumbir, colaborar ou se isolar, ouvir ou se enclausurar. Nem a fome, nem a fumaça do ar, tampouco a ausência de um lugar para voltar são destinos inescapáveis, mas desafios que impõem um conceito mais abrangente e sistêmico de cooperação, sem o qual até mesmo a pergunta de Reagan a Gorbachev parecerá trivial.

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