Sexta-feira, 15 de maio de 2026

Corsan acelera nova era do saneamento com fábrica de tubos

Com fábrica própria de tubos, tecnologia inédita para pequenas cidades e um plano bilionário de resiliência hídrica, companhia controlada pela Aegea amplia escala de investimentos e coloca o Rio Grande do Sul em rota acelerada para cumprir as metas do Marco Legal do Saneamento.

Poucas agendas têm potencial tão transformador quanto o saneamento — embora quase sempre permaneçam invisíveis. Seus efeitos aparecem na saúde pública, na preservação ambiental, na produtividade econômica e na qualidade de vida, mas suas obras raramente ocupam o centro do debate. No Rio Grande do Sul, essa invisibilidade começa a dar lugar a um dos maiores ciclos de investimento em infraestrutura da história recente do Estado.

Sob controle do Grupo Aegea desde 2023, a Corsan entrou em uma nova fase operacional. A meta é ambiciosa: atender às exigências do Marco Legal do Saneamento, que determina até 2033 a universalização do acesso à água tratada e cobertura de 90% em coleta e tratamento de esgoto. Para isso, a companhia aposta em três pilares: capacidade industrial, inovação tecnológica e adaptação climática.

Os números ajudam a dimensionar a mudança.

Somente em 2026, o planejamento da companhia prevê 1.741 quilômetros de novas redes, 155 mil novas ligações de esgoto e impacto direto sobre cerca de 955 mil gaúchos.

A nova etapa começa pela ampliação da capacidade de execução.

Em Esteio, a Corsan colocou em operação uma fábrica com capacidade para produzir 200 quilômetros de tubos por mês, destinada exclusivamente às obras de expansão sanitária.

Não se trata apenas de uma nova unidade industrial.

É uma mudança de lógica.

Ao internalizar parte da produção, a companhia reduz dependência de fornecedores externos, minimiza atrasos e ganha previsibilidade em obras distribuídas por 317 municípios.

“Estamos estruturando capacidade para entregar o maior ciclo de obras da história da companhia. Isso significa mais eficiência, mais velocidade e maior segurança operacional”, destaca a direção da Corsan.

Para o engenheiro hídrico Carlos Henrique Möller, especialista em infraestrutura urbana e planejamento de sistemas de abastecimento, a medida corrige um dos gargalos históricos do setor.

“O cronograma de saneamento quase sempre é refém da cadeia de suprimentos. Quando a empresa controla esse insumo crítico, ela reduz vulnerabilidades e transforma capacidade produtiva em capacidade de entrega”, afirma.

Mas a industrialização é apenas parte da estratégia.

A segunda frente está na inovação.

Criada pela própria equipe técnica da companhia, com apoio da experiência nacional da Aegea, a SCOTTE — Sistema Compacto e Transportável de Tratamento de Esgoto foi desenvolvida para resolver um desafio recorrente: levar saneamento a municípios menores com rapidez e viabilidade econômica.

Voltada a cidades com até 25 mil habitantes, a solução atende um universo de cerca de 180 municípios gaúchos.

Seu diferencial está no tempo.

Uma estação convencional pode levar até dois anos para entrar em operação.

Com a nova tecnologia, esse prazo cai para até três meses.

Após o projeto-piloto em Canoas, a expansão ganhou escala: 26 novas unidades estão em fabricação por indústrias locais, fortalecendo também a cadeia produtiva gaúcha.

“Para municípios pequenos, esse modelo muda completamente a equação econômica do saneamento. O que antes demorava anos passa a ser possível em meses”, resume Möller.

A terceira frente nasce de um aprendizado recente e doloroso.

As enchentes históricas de 2024 reposicionaram a segurança hídrica como prioridade estratégica no Estado.

Em resposta, a companhia estruturou um Plano de Resiliência Hídrica de R$ 1,88 bilhão, destinado a ampliar a capacidade de resposta dos sistemas diante de eventos extremos.

Um dos eixos dessa estratégia está em Viamão, onde novos sistemas de captação subterrânea entram em operação para reduzir a dependência exclusiva de mananciais superficiais.

Poços profundos, bombeamento automatizado e monitoramento em tempo real passam a integrar a rede metropolitana.

Na prática, isso significa redundância.

E redundância, em saneamento, significa segurança.

“Infraestruturas modernas precisam estar preparadas para falhar menos. Diversificar fontes de abastecimento deixou de ser opção; tornou-se necessidade”, observa o especialista.

Os efeitos desse novo ciclo vão além da engenharia.

Cada rede implantada representa menos esgoto lançado em rios e arroios.

Cada estação entregue reduz pressão sobre o sistema de saúde.

Cada nova fonte de abastecimento amplia estabilidade para famílias, escolas, hospitais e empresas.

Durante muito tempo, água e esgoto foram tratados como serviços invisíveis — percebidos apenas quando faltavam.

Essa percepção começa a mudar.

No Rio Grande do Sul, o saneamento passa a ocupar um novo lugar na agenda pública: o de infraestrutura estratégica para o desenvolvimento.

Mais do que cumprir metas regulatórias, o que a Corsan coloca em marcha é uma mudança de escala — e de visão.

O saneamento deixa de ser obra subterrânea.

Passa a ser política de futuro. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)

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