Domingo, 18 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 17 de janeiro de 2026
A concessão de financiamentos aos produtores pelas linhas tradicionais de crédito rural caiu cerca de 15% na primeira metade do Plano Safra 2025/26. Em um ambiente de juros mais elevados, endividamento em alta e necessidade de maior provisionamento de perdas pelas instituições financeiras, houve restrição e dificuldades no acesso aos empréstimos. O resultado foi a queda no valor desembolsado para R$ 188 bilhões, abaixo dos R$ 220,3 bilhões dos seis primeiros meses da temporada anterior, de acordo com dados do Banco Central compilados pela reportagem.
O recuo foi mais acentuado nas operações de investimentos e entre grandes produtores, que recorrem às emissões de Cédulas de Produto Rural (CPR) para se financiar. Até novembro de 2025, o acesso a recursos pelo título havia crescido 30% e superado os R$ 101 bilhões dos R$ 188,5 bilhões previstos até o fim de junho deste ano. O Plano Safra 2025/26 foi anunciado com R$ 594,4 bilhões ao todo, sendo R$ 405,9 bilhões em crédito rural “puro”, sem contar esses papéis emitidos em favor dos bancos.
O acesso aos investimentos caiu quase 29%, para R$ 42,4 bilhões, nos seis primeiros meses da safra e manteve a espiral de queda observada na temporada anterior. No ciclo 2024/25, a busca por esses financiamentos foi 12% menor do que em 2023/24, com desembolso de R$ 96,3 bilhões em 12 meses. A retração foi puxada pelos grandes produtores, que contrataram 23% menos entre julho de 2024 e junho de 2025 (R$ 59 bilhões).
A retração se deve, em parte, à escalada dos juros no período e à menor disposição dos produtores de firmar contratos de longo prazo a taxas de dois dígitos. Margens mais espremidas também fazem os agricultores adiar investimentos, como a troca de máquinas.
Segundo os dados do BC, as operações de custeio tiveram retração de 15%, para R$ 127,1 bilhões, entre julho e dezembro de 2025. Na comercialização, a diminuição do valor concedido foi menos acentuada, de 9%, para R$ 18,1 bilhões. Houve crescimento apenas nos financiamentos de industrialização, de 40%, para R$ 19 bilhões.
Regressão
Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), diz que há uma regressão do Plano Safra ano após ano e que isso é reflexo de uma “crise” no crédito rural. O cenário é intensificado pelos juros altos, a falta de liquidez no campo e as dificuldades enfrentadas pelas instituições financeiras com as novas regras de provisionamento de perdas, que tiram apetite e travam empréstimos a um setor com inadimplência crescente.
Ele concorda com a atuação do Banco Central na condução dos juros e culpa o desequilíbrio fiscal pela Selic em 15%. “Não há legalmente na agricultura o que pague juros desse montante”, afirma. Com margens mais apertadas, a fatia da receita gerada dentro da porteira é cada vez maior para pagar taxas, acrescenta.
Para o economista da Farsul, o maior recuo no acesso ao crédito se dá entre grandes agricultores por causa dos juros nas operações. “Os grandes produtores buscam recursos no mercado enquanto os pronafianos pegam com juros bem abaixo”, afirma, em referência a agricultores familiares que usam as linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
Acesso ao crédito
Economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), Francisco Faria Pessoa destaca que há dificuldades adicionais para determinados públicos do campo no acesso ao crédito. “A situação continua complicada porque os preços das commodities estão caindo, como no caso da soja. O cenário é pior para quem arrendou terras no pico dos preços”, aponta o especialista.
Enquanto grandes produtores acessaram 20% menos recursos nas linhas do Plano Safra, médios e pequenos produtores tiveram recuos menores, com cenário mais próximo da estabilidade. A agricultura familiar, atendida com juros entre 2% e 8% ao ano, praticamente manteve o ritmo de contratações. O desembolso chegou a R$ 37,6 bilhões entre julho e dezembro de 2025.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, afirma que não há “crise” no Pronaf. “O crédito só não caiu no Pronaf, não tem problema e há dinâmica. O Pronaf hoje está bombando”, afirmou ao Valor. “Isso se deve ao aporte de orçamento para equalização das taxas, que é grande, e aos juros reais negativos para produção de alimento que vai para a mesa do povo”, completa.
No Desenrola Rural, foram R$ 12,5 bilhões regularizados em Dívidas Ativas da União (DAU) e quase R$ 3,3 bilhões em operações com recursos próprios das instituições financeiras. O programa, encerrado em 31 de dezembro, também viabilizou a renegociação com descontos de R$ 189,7 milhões de débitos com Fundos Constitucionais e R$ 80,2 milhões de crédito instalação, operado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Com informações do Valor Econômico e Globo Rural.