Domingo, 08 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 7 de fevereiro de 2026
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse neste sábado (7) que a classe dominante no País quase sempre entende o Estado como algo que pertence a ela e por isso, a democracia brasileira ainda é “problemática” e um pouco “frágil”. A declaração foi feita durante o evento de lançamento de seu livro “Capitalismo Superindustrial”, que aconteceu no Sesc 14 Bis, em São Paulo.
“A classe dominante do Brasil entende o Estado como dela. Não é uma coisa nossa. É uma coisa dela. Então, se pinta por aí um metalúrgico achando que pode… é confusão na certa”, disse, em referência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Haddad relembrou que esse processo começa ainda no século 19 no País, em meio aos processos de abolição da escravidão e da Proclamação da República.
“Defendo a tese, que um dia, quem sabe, eu possa desenvolver, de que o Estado foi entregue aos fazendeiros como minimização pela abolição da escravidão”, disse o ministro, reforçando que esse problema de não foi só domínio do Estado, mas de poder sobre as Forças Armadas persiste até hoje.
“Por isso que a democracia no Brasil é tão problemática e tão frágil. Porque a democracia leva a contestação desse status quo. E quando ela estica a corda, a ruptura institucional pode acontecer”, avaliou.
O evento teve um bate-papo que contou também com as presenças da antropóloga Lilia Schwarcz e do sociólogo Celso Rocha de Barros.
Ao comentar sobre o conteúdo do livro, que retoma parte do trabalho teórico do próprio Haddad sobre a economia da União Soviética, o ministro disse que pretendeu discorrer sobre o desenvolvimento de outras experiências, notadamente a da China, que, segundo ele, “desviou” do caminho do neoliberalismo.
Para Haddad, a previsão feita por Karl Marx em seu livro “O Capital”, de que todo o mundo cederia ao modo de produção capitalista, se mostrou correta, mas que, a partir de agora, é preciso pensar em novas maneiras de lidar com o capitalismo, sobretudo para atenuar a crescente desigualdade.
“Quando houve transformação do trabalho em mercadoria, você colocou para andar um negócio avassalador, e nós estamos vivendo há quase 200 anos sobre esse processo que os sociólogos modernos chamam de aceleração”, pontuou ele.
Segundo Haddad, a obra ganhou importância à medida que a China se tornou uma potência econômica, capaz de colocar sob ameaça a hegemonia do Ocidente.
“A China deu a oportunidade de voltar à discussão sobre, afinal de contas, o que é aquela experiência (soviética)? Qual é a natureza socioeconômica daquela experiência e os objetivos? Esse desafio ao Ocidente é uma simples disputa pela hegemonia na economia mundia, ou tem alguma coisa além disso?”, detalhou o ministro.
Segundo o ministro, a desigualdade econômica gerada pelo capitalismo deve seguir aumentando e, por isso, a configuração atual tem exposto cada vez mais essa contradição do capitalismo. Ele lembrou que, como a esquerda não conseguiu dar uma resposta concreta para o problema, houve ascensão da extrema-direita nas primeiras décadas dos anos 2000.
“Agora que a extrema-direita ascendeu, eu não acredito que a humanidade vai ficar parada. O livro traz otimismo, uma esperança de que a gente se mobilize contra a extrema-direita e faça alguma coisa de útil”, finalizou.