Segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 11 de janeiro de 2026
A deposição do presidente venezuelano Nicolás Maduro reverberou do outro lado da fronteira, na Colômbia, e a relação entre o presidente Gustavo Petro e o americano Donald Trump, que já era tensa, desandou meses antes das eleições deste ano.
Os colombianos vão às urnas em março, para escolher os senadores e deputados, e novamente em maio, para o primeiro turno das eleições presidenciais, com a possibilidade de um segundo turno em junho.
Há meses, Trump e Petro mantêm uma relação tensa, que resultou em crises diplomáticas e sanções dos EUA contra a Colômbia e seu presidente. Após o ataque na Venezuela, as preocupações do governo colombiano aumentaram. Trump sugeriu que uma operação militar contra a Colômbia “parece uma boa ideia”. Ele também disse várias vezes a Petro para “cuidar do próprio traseiro”.
Na última semana, enquanto era entrevistado pelo jornal The New York Times, Trump interrompeu a conversa para atender a uma ligação de Petro. Na chamada, eles discutiram a situação das drogas na Colômbia.
“O antagonismo mútuo entre Petro e Trump será um fator importante nas eleições. Petro tentará enquadrar qualquer outro nome que não apoie sua agenda como um candidato pró-trump, enquanto os outros tentarão retratar qualquer um que apoie Petro como um candidato pró-maduro”, avalia Sergio Guzmán, diretor e fundador da consultoria Colombia Risk Analysis.
Pela legislação do país, Petro não pode tentar um novo mandato —a reeleição é vetada desde 2015. A aposta da esquerda para a disputa é o senador Iván Cepeda, que no fim do ano passado venceu as primárias da coalizão governista Pacto Histórico. Ele é um defensor dos direitos humanos e filho de um político assassinado em 1994, uma das diversas vítimas desse tipo de crime no país vizinho.
A candidatura de Cepeda ganhou tração nos últimos meses, por conta das batalhas judiciais de um desafeto seu, o ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010). Em 2012, Uribe acusou o esquerdista de suposta manipulação de testemunhas. Só que, em 2018, a Suprema Corte arquivou o caso contra Cepeda por falta de provas e iniciou uma ação contra Uribe, que passou de acusador a réu. O ex-mandatário chegou a ser condenado no ano passado, mas foi absolvido meses depois.
Influência de Trump
Assim como ocorreu em 2025 em Honduras, no Chile, na Bolívia e nas eleições legislativas da Argentina, a expectativa é que Trump também aponte um favorito no pleito colombiano. Após a queda de Maduro, o advogado criminalista e candidato Abelardo de la Espriella (Defensores da Pátria) declarou que considerava a prisão do chavista “brilhante”, enquanto outros nomes da oposição preferiram reagir com cautela.
Na avaliação de Guzmán, o político de ultradireita é quem mais tenta emular Trump e tem se mostrado firme em seu apoio às ações da Casa Branca, qualificando-se como um futuro nome apoiado pelo americano nas eleições. Ainda assim, o apoio de Trump não necessariamente pode ser favorável à direita.
“Não devemos subestimar o poder do nacionalismo, que está presente na América Latina de forma significativa. Na realidade, os colombianos estão profundamente interessados nos problemas que assolam nossa sociedade, como saúde, insegurança, corrupção e economia, que serão centrais”, diz Guzmán.
Três pesquisas divulgadas em novembro apontam que Cespeda lidera e deve ir para o segundo turno, com intenções de voto de 24% a 31%; em seguida, Espriella aparece com percentuais de 14% a 18%; em terceiro, o ex-governador Sergio Fajardo (Dignidade e Compromisso) teria 8%. Os consultores ouvidos pela Folha avaliam que o assassinato do senador de oposição e pré-candidato Miguel Uribe, em atentado no ano passado, não foi capaz de gerar, apesar da comoção, um movimento de união dos partidos da direita tradicional.
A esquerda colombiana tem o desafio também de contornar a baixa popularidade de Petro. Segundo um levantamento da CB Consultoria, o argentino Javier Milei (48,3%), o boliviano Rodrigo Paz (47,6%) e Lula (47,1%) eram os três líderes da América do Sul com os maiores índices de aprovação. No outro extremo estavam Maduro (24,3% de aprovação), seguido por Petro (34,9%) e pelo peruano José Jerí (37,2%). As informações são da Folha de S. Paulo.