Sábado, 11 de julho de 2026

Deputados turbinam gastos de cota parlamentar com publicidade nas redes sociais

“Você sabia o que o meu mandato se tornou campeão nacional de emendas para a causa animal? Destinamos mais de R$ 16 milhões para a realização de castrações de cães e gatos”, disse o deputado federal Bruno Ganem (Podemos-SP), em publicação no Instagram.

Esse vídeo, visto por mais de 1 milhão de pessoas do Estado de São Paulo – especialmente em Indaiatuba, base eleitoral do parlamentar – foi impulsionado pelo deputado pagando cerca de R$ 2 mil à Meta, empresa que gere o Instagram e o Facebook. A verba que bancou o gasto veio da cota parlamentar.

Ganem é o deputado que mais gastou dinheiro da cota de janeiro a junho de 2026, acompanhando uma tendência dos seus outros 512 colegas de Câmara – parlamentares gastaram R$ 2,1 milhões da cota parlamentar em 2026 para impulsionar anúncios políticos na plataforma Meta, responsável pelo Facebook e Instagram, em ano em que disputam nova eleição.

Esse número é quase quatro vezes maior do que o gasto na última eleição federal, de janeiro a junho de 2022, quando os deputados desembolsaram, no total, R$ 572 mil, em valores nominais, para aumentar ao alcance de suas publicações nas redes sociais no mesmo período.

“Hoje, a maior parte das pessoas recebe informação pelo celular. A notícia, o vídeo, a prestação de contas e até o diálogo com o parlamentar acontecem na palma da mão”, disse Ganem, que gastou R$ 155 mil da cota parlamentar.

Os parlamentares podem usar o dinheiro da cota para divulgar a atividade parlamentar, inclusive para impulsionar anúncios políticos no Facebook. Em anos eleitorais, porém, isso só pode ser feito até o dia 4 de junho. Até o momento, a Meta é a empresa que mais recebeu dinheiro da cota parlamentar neste ano. Especialistas mencionam que a crescente nos gastos com impulsionamento no Facebook e Instagram é reflexo do maior consumo das redes sociais pelo brasileiros e consolidação do “monopólio” que a Meta tem no campo dos anúncios políticos nas redes.

Isso porque em 2024, o Google proibiu o impulsionamento de propagandas políticas em todas as suas plataformas. Outras redes sociais como o X, TikTok e Kwai acompanharam a gigante que também é dona do YouTube. Hoje, só é possível impulsionar conteúdos pela Meta.

“A Meta, que tem a principal plataforma usada por políticos, o Instagram, hoje tem uma espécie de monopólio nesse mercado”, disse Maria Carolina Lopes, doutora em Comunicação pela Universidade Pompeu Fabra, na Espanha, que vê no impulsionamento de conteúdos uma forma dos candidatos serem notados pelos seus eleitores. “Antes os candidatos tinham que pagar panfletos e pedir para as gráficas os imprimirem para a informação chegar até as pessoas. E a forma que eles conseguem isso hoje nas redes é com um bom conteúdo, boa entrega e impulsionamento.”

Desde o começo desta legislatura, em 2023, os gastos seguem uma crescente. Em 2023, deputados gastaram R$ 1,8 milhão; em 2024, R$ 2,1 milhões; e em 2025, R$ 3,2 milhões. Desde agosto 2020, data em que se tem registro de publicidades políticas na Meta, Ganem já gastou R$ 740,9 mil com impulsionamento de conteúdos. Em parte desse período (entre 2020 e 2021),ele não era deputado, e, portanto, não tinha cota parlamentar para custear esses impulsionamentos.

“Quem não aparece não é lembrado. A nova ágora da política é as redes sociais”, diz Erick Sá, especialista em estratégia eleitoral e marketing político, fundador da Insight Político. “O parlamentar ele tende a usar o anúncio não necessariamente para pedir voto, mas para construir reputação. Não apenas numa linha de prestação de contas, mas efetivamente para a divulgação de suas causas.”

Para veicular conteúdos de teor político do Brasil, o usuário precisa confirmar sua identidade, residência no País, assim como disponibilizar um número de telefone, endereço de email e um website. Após confirmar a identidade, o conteúdo receberá um rótulo informado como o anúncio foi pago e com informações sobre os endereços de contato.

Segundo as regras da Meta, um anúncio é considerado político quando “for preparado por, encomendado em nome de ou relacionado a um candidato atual ou ex-candidato a um cargo público, a uma figura política, a um partido político ou que defende o resultado de uma eleição a um cargo público” ou se for “sobre eleições, referendos ou iniciativas de votação, incluindo campanhas de incentivo ao voto ou eleitorais”. Procurada, a Meta não se manifestou. (Com informações do jornal O Estado de S. Paulo)

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