Quinta-feira, 12 de março de 2026

Direira antecipa disputa ao Senado nas redes sociais e investe em narrativa anti-Supremo coordenada

De olho nas eleições, políticos de direita têm antecipado nas redes sociais a disputa por vagas no Senado e apostado em uma narrativa crítica ao Supremo Tribunal Federal (STF). A estratégia é apontada por um levantamento inédito do Projeto Brief, que identificou o financiamento articulado de anúncios políticos nas plataformas Facebook e Instagram.

O estudo analisou dados da Biblioteca de Anúncios da Meta no período entre 1º e 31 de janeiro deste ano. A pesquisa rastreou publicações patrocinadas que continham os termos “Senado”, “Senador”, “Senadora” e “Senadores”. Ao todo, foram identificados 890 anúncios relacionados a esse campo político.

Segundo os responsáveis pelo levantamento, os dados indicam um padrão consistente na origem desses conteúdos. A maior parte das peças publicitárias analisadas é financiada por atores vinculados à direita e à extrema-direita. Já o campo progressista aparece com participação considerada residual dentro desse universo de anúncios políticos.

A análise também destaca que o interesse pelo Senado nas plataformas digitais cresceu de forma significativa no último ano. De acordo com o estudo, as menções à Casa legislativa superaram em mais de 10 milhões as referências genéricas ao Congresso Nacional nas redes sociais.

Para os pesquisadores, esse aumento representa um movimento incomum, já que historicamente o Senado costuma ter presença menor no debate público online quando comparado a outras instituições políticas. O crescimento das citações sugere uma tentativa de ampliar a centralidade da Casa no debate político digital.

O conteúdo das peças patrocinadas apresenta, segundo o estudo, um eixo narrativo relativamente uniforme. Em grande parte dos anúncios, o Senado atual é retratado como um poder enfraquecido ou omisso diante das decisões do Judiciário. Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal aparece descrito como uma instituição que teria avançado sobre atribuições do Legislativo.

Nesse contexto, a eleição de 2026 costuma ser apresentada como um momento decisivo para, segundo os anúncios, “restaurar o equilíbrio entre os Poderes”. A ideia de renovação do Senado é frequentemente associada a essa proposta de reconfiguração institucional.

Outro ponto observado pelos pesquisadores foi a repetição de determinados termos e expressões. Entre eles, aparece com frequência a expressão “sem rabo preso”, utilizada nas peças como um elemento de identificação moral e política. De acordo com o levantamento, o termo funciona como uma espécie de marca discursiva compartilhada entre diferentes campanhas.

A análise também aponta que candidaturas de partidos distintos utilizam vocabulário semelhante, além de enquadramentos narrativos próximos e um mesmo antagonismo central, resumido na oposição entre STF e Senado.

Os anúncios mapeados foram patrocinados por diferentes perfis políticos e institucionais. Entre eles estão parlamentares em exercício, ex-parlamentares, partidos políticos, advogados, influenciadores digitais e até podcasts regionais.

Ainda segundo o levantamento, muitos desses conteúdos utilizam videocasts e cortes de programas impulsionados nas redes. Esse formato cria a aparência de conversas espontâneas e tende a reduzir a percepção do público de que se trata de propaganda política patrocinada. (Com informações do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo)

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