Quinta-feira, 16 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 16 de abril de 2026
O secretário de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi exonerado na segunda-feira (13) em ato visto como retaliação por entidades sindicais, que afirmam que o motivo por trás da dispensa teria sido a inclusão da montadora chinesa BYD na chamada “lista suja” da pasta.
O ministério de Luiz Marinho nega e afirma que a exoneração foi “ato administrativo de gestão” e “prerrogativa de ministro de Estado”.
Em 6 de abril, a BYD foi incluída na lista de empresas acusadas de empregar trabalhadores em condições análogas à escravidão em obra na sua fábrica de Camaçari (BA). A decisão foi tomada ao fim de um processo envolvendo mais de 150 trabalhadores chineses flagrados em condições análogas à escravidão.
A montadora entrou com um mandado de segurança na Justiça e, na noite do dia 8, o pedido para retirada do nome da relação foi concedido. Além da montadora, a relação do ministério incluiu também o cantor Amado Batista, que negou irregularidades em propriedades suas em Goianópolis (GO).
Vice-presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais do Trabalho do Estado da Bahia (Safiteba), Mario Diniz Xavier de Oliveira vê interferência de Marinho na exoneração e associa a decisão ao episódio envolvendo a BYD.
“De uma hora para outra, o ministro começou a interferir nos processos resultantes de ações de combate ao trabalho escravo, invocando um artigo da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) que, na nossa opinião, está completamente derrogado, não tem nenhuma sustentação frente à Constituição Federal de 1988”, diz.
O dispositivo citado por Xavier de Oliveira prevê que o ministro do Trabalho pode avocar ao seu exame e decisão, dentro de 90 dias do despacho final do assunto, ou no curso do processo, as questões referentes à fiscalização dos preceitos estabelecidos na CLT.
Sem colchões
Criada em 2003, a “lista suja” é publicada semestralmente para divulgar os resultados das ações fiscais de combate ao trabalho escravo, que envolvem a atuação do MPT, da Auditoria Fiscal do Trabalho (AFT), da Polícia Federal (PF), do Ministério Público Federal (MPF), da Defensoria Pública da União (DPU) e, eventualmente, de outras forças policiais.
Segundo as investigações envolvendo a montadora chinesa, os funcionários “estavam submetidos a condições de vida e trabalho extremamente precárias”, sendo obrigados a dormir em camas sem colchões e guardar seus pertences com ferramentas de trabalho e alimentos. “Em um dos alojamentos, havia apenas um banheiro disponível para cada 31 pessoas, o que os obrigava a acordar às 4h da manhã para conseguir se preparar para a jornada.”
Para o vice-presidente do Safiteba, “é evidente que tem um ato retaliatório”. “Tem uma vinculação. Claro que isso não foi a troca de um secretário. Obviamente, é um ato de gestão, mas essa troca aí, nesse contexto, não é um ato de gestão; ela é um ato de retaliação à inspeção do trabalho”, afirmou. “É tão grave essa situação que, para você ter uma ideia, isso não aconteceu nem na ditadura militar. Eu tenho 20 anos de carreira, eu não me lembro de ter um precedente desses de um ministro do Trabalho pegar e tirar uma empresa da lista suja e dizer: ‘Não, esse aqui eu vou julgar’.”
A Associação Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Anafitra) também se manifestou sobre o tema e criticou a exoneração de Brandão de Mello. “Para a entidade, o episódio ocorre em meio a uma sequência de interferências do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, em processos já concluídos, e representa um grave sinal de retaliação institucional”, indicou, em nota. (Com informações de O Estado de S. Paulo)