Sábado, 07 de março de 2026

Do posto de gasolina ao painel solar: a jornada do empoderamento energético

Durante décadas, o brasileiro foi condicionado a acreditar que não havia alternativa à gasolina. O posto de combustível tornou-se símbolo de mobilidade, mas também de dependência. Cada litro consumido significava não apenas gasto financeiro, mas também submissão a um modelo energético centralizado, dominado por grandes corporações e pela indústria do petróleo. Nesse cenário, a comunicação sobre energia sempre foi marcada por tecnicismos e narrativas que afastavam o cidadão comum. O setor elétrico e energético parecia um território restrito a engenheiros e investidores, quando na verdade deveria ser pauta de toda a sociedade. Afinal, energia é vida, é desenvolvimento, é liberdade.

A chegada dos carros elétricos e das energias renováveis mudou o jogo. Pela primeira vez, o consumidor pode ser protagonista. Os números não deixam dúvidas: veículos elétricos convertem mais de 85% da energia em movimento, contra apenas 30% dos motores a combustão. O custo por quilômetro rodado pode ser até 70% menor, e a manutenção é simplificada — sem óleo, velas ou câmbio complexo.

Além disso, o impacto ambiental é incomparável. Um carro elétrico emite até 60% menos gases de efeito estufa ao longo de sua vida útil. Não há um único item em que o modelo elétrico seja inferior ao carro a gasolina. Ainda assim, surgem argumentos frágeis: “a autonomia é baixa”, “o preço é alto”, “o tempo de recarga é longo”. São justificativas pobres, que não resistem à evolução tecnológica. Hoje, modelos já ultrapassam 400 km de autonomia e carregadores rápidos reduzem o tempo de espera a minutos.

Entre os argumentos contrários, há um ponto que merece ser tratado com seriedade: a questão da segurança das baterias. É verdade que, em casos raros, incêndios em baterias de íon-lítio são difíceis de apagar e exigem protocolos específicos. Esse risco é frequentemente usado como arma retórica contra os veículos elétricos. No entanto, é importante contextualizar: a incidência de incêndios em carros elétricos é estatisticamente menor do que em veículos a combustão, que transportam líquidos altamente inflamáveis diariamente. A tecnologia das baterias evolui rapidamente, com sistemas de gerenciamento térmico e protocolos de segurança cada vez mais sofisticados. Ignorar esse ponto seria manipulação da narrativa; reconhecer e explicar é parte da comunicação educacional que precisamos construir.

O verdadeiro salto está no empoderamento do consumidor. Quem imaginaria, há poucas décadas, que seria possível gerar energia em casa com painéis solares, armazená-la em baterias e utilizá-la para abastecer o próprio veículo? Esse ciclo fecha uma lógica de independência: o cidadão deixa de ser refém da gasolina e passa a ser produtor e gestor da própria energia. Esse empoderamento é revolucionário. Ele transforma o consumidor em protagonista da transição energética, reduzindo a dependência de grandes empresas e do mercado internacional de petróleo. É um caminho que fortalece a economia doméstica e democratiza o acesso à energia limpa.

Apesar das evidências, a transição energética enfrenta resistência. A política partidária sequestrou o tema, transformando-o em bandeira ideológica. Essa divisão interessa à indústria do petróleo, que se beneficia da manutenção do status quo. Enquanto isso, narrativas de medo tentam convencer a população de que a mudança é cara ou inviável. Mas a realidade é outra: cada real investido em energias limpas gera até três reais em benefícios econômicos, segundo a Agência Internacional de Energia. Mais empregos, menos poluição, maior independência. Ignorar isso é perpetuar um modelo irresponsável de consumo e acumulação de riquezas que destrói o planeta.

Não se trata de demonizar quem pensa diferente, mas de reconhecer que quem não cuida do planeta age como inimigo do futuro. Pode parecer radical, mas é apenas a constatação de que estamos correndo contra o tempo. O planeta não pode esperar por consensos que não se concretizarão. A narrativa precisa mudar: energia limpa não é luxo, é necessidade. Carros elétricos não são promessa, são realidade. O empoderamento do consumidor não é utopia, é caminho. A pergunta que fica é simples e direta: queremos continuar presos ao posto de gasolina ou assumir o volante de uma nova era energética?

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

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