Terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 10 de fevereiro de 2026
A nova fila nacional de análise de benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), implementada em janeiro, não estabelece prioridade específica para segurados em estado grave de saúde. Mesmo em situações de alta complexidade clínica, o agendamento de perícias segue, em regra, a ordem cronológica de entrada dos requerimentos.
Com a mudança, os pedidos deixaram de ser organizados exclusivamente de forma regional. A análise passou a ser redistribuída nacionalmente, permitindo que servidores de localidades com menor volume de demanda atuem em processos de regiões mais congestionadas. A expectativa do governo é reduzir desigualdades no tempo de espera e equilibrar a carga de trabalho entre as unidades.
Apesar disso, a unificação da fila não resolveu um dos principais gargalos do sistema: a ausência de um critério que diferencie a urgência clínica dos casos antes da perícia médica. Na prática, segurados com quadros graves concorrem na mesma fila com outros requerentes que também se enquadram em prioridades legais, como idosos, pessoas com deficiência ou com doenças incapacitantes.
Como a maior parte da fila já é composta por pedidos que possuem algum tipo de prioridade prevista em lei, o sistema não consegue hierarquizar os casos de acordo com a gravidade da condição de saúde. A classificação do problema médico ocorre apenas no momento da realização da perícia, o que impede antecipações com base em laudos ou diagnósticos prévios.
O Ministério da Previdência Social informa que a fila de perícias é única e organizada exclusivamente pela data de entrada do pedido. Segundo a pasta, não há mecanismo para distinguir graus de gravidade antes da avaliação médica, uma vez que a enfermidade só é formalmente identificada durante a perícia.
O tamanho da fila agrava o cenário. Dados do Boletim Estatístico da Previdência Social de dezembro de 2025 indicam que o INSS acumula mais de 3 milhões de requerimentos em análise ou aguardando perícia inicial, número considerado recorde. Do total, cerca de 982 mil pedidos ainda estão dentro do prazo legal de até 45 dias, enquanto aproximadamente 1,7 milhão já ultrapassou esse limite. Outros 357 mil permanecem pendentes por falta de documentação complementar. A região Nordeste concentra o maior volume de requerimentos represados.
A demora também pode gerar distorções no resultado final dos pedidos. Em alguns casos, o longo intervalo até a perícia faz com que o segurado apresente melhora clínica ou retorne ao trabalho, o que pode resultar na negativa do benefício ou na não concessão de valores retroativos.
Criação da fila nacional
Especialistas avaliam que a criação da fila nacional é uma medida necessária diante do acúmulo de pedidos, ao padronizar o fluxo e reduzir desigualdades regionais. A mudança faz com que o tempo de espera deixe de depender do local onde o requerimento foi feito, seguindo a ordem cronológica nacional.
A iniciativa ganha relevância especialmente para benefícios que concentram a maior parte da demanda, como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e os benefícios por incapacidade, que representam mais de 80% dos processos represados. Ainda assim, a ausência de um critério de priorização por gravidade clínica segue como um dos principais desafios do sistema previdenciário.