Quinta-feira, 05 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 4 de março de 2026
O dólar fechou em queda firme de 0,81% nessa quarta-feira (4), cotado a R$ 5,218, em movimento de correção após uma forte aversão ao risco tomar as negociações na véspera. O Ibovespa fechou em alta de 1,32%, a 185.366 pontos, depois de ter tombado mais de 3% na terça (3).
A moeda norte-americana passou toda a sessão no negativo, tendo chegado à mínima de R$ 5,192 no início da tarde. Na véspera, em meio ao agravamento do conflito no Oriente Médio, a divisa saltou de R$ 5,164, patamar de fechamento de segunda (2), para R$ 5,261.
Investidores seguem atentos aos desenrolares da guerra no Irã, em especial nas implicações para o mercado de energia, mas o sentimento desta quarta é de maior apetite por ativos de risco e reflete, também, no desempenho da Bolsa de Valores brasileira.
Outros índices globais também refletiram a disposição dos operadores por investimentos menos conservadores.
Em Wall Street, o Dow Jones, o S&P 500 e o Nasdaq Composite avançaram 0,5%, 0,8% e 1,3%, respectivamente. Os europeus Euro Stoxx 600, FTSE (Londres), CAC (Paris) e DAX (Frankfurt) subiram em torno de 1% cada também.
As exceções foram as praças asiáticas. A Bolsa de Seul despencou 12%, maior queda em um dia na sua história, depois de já ter perdido 7% na véspera. O Nikkei, do Japão, perdeu 3%; o Hang Seng, de Hong Kong, 2%.
Também em queda, o dólar perdeu ante a maior parte das moedas, inclusive de mercados emergentes, como o rand sul-africano, o peso chileno, o peso mexicano e o real. O índice DXY, que compara a divisa dos EUA a seis moedas fortes, recuou 0,27%.
O movimento de correção se somou ao de outros ativos, como o petróleo, que acumulou alta de 12% nos últimos dois dias. O barril do Brent, principal referência de preço internacional, opera próximo de US$ 81, uma queda de 0,12% em relação ao patamar de terça, mas ainda assim um valor que não era visto desde janeiro de 2025.
Em resposta, as ações da Petrobras caíram 1% no pregão da B3.
“O dia foi marcado por um movimento de acomodação nos mercados após o estresse observado no pregão anterior. A estabilização dos preços do petróleo, depois da forte alta provocada pela escalada das tensões no Oriente Médio, ajudou a aliviar parte da pressão sobre o dólar”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
“A percepção de que os EUA podem garantir o fluxo de petróleo pelo estreito de Ormuz contribuiu para reduzir parcialmente o prêmio de risco geopolítico, diminuindo a demanda defensiva pela moeda americana.”
Trump afirmou que poderia enviar a Marinha para escoltar petroleiros pelo estreito de Ormuz, via por onde passam 20% do petróleo e gás do mundo.
A retórica, porém, foi contestada pela Guarda Revolucionária do Irã, que disse que o país controla a passagem pelo canal. “Atualmente, o estreito de Ormuz está sob controle total da Marinha da República Islâmica”, disse nesta quarta.
Teerã afirmou ter fechado o estreito de Ormuz na segunda-feira. O Qatar ainda suspendeu a produção de gás natural liquefeito, levando ao fechamento preventivo de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A produção do país representa cerca de 20% da oferta global.
“Apesar do anúncio feito por Trump, ainda é incerto a capacidade da frota marinha dos EUA de conseguir escoltar diversos tanqueiros pelo estreito, bem como a inclinação das empresas marítimas de enviarem seus ativos pelo canal”, diz Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da Stonex.
“Caso seja observado um aumento do número de navios cruzando a via, parte dos prêmios de risco de oferta podem ceder, impactando negativamente os preços do petróleo.”
O principal receio, hoje, é de que a guerra cause disrupções prolongadas nos mercados de energia. Se o confronto durar mais tempo, os preços mais altos das commodities poderão provocar um repique inflacionário – sobretudo em países que já estão avançados nos ciclos de afrouxamento de juros, como os Estados Unidos.
A possibilidade tira atratividade de mercados emergentes e pode frear o fluxo de capital estrangeiro que, no Brasil, inundou a B3 nos primeiros dois meses do ano.
“Os ataques ao Irã foram totalmente inesperados. Nenhum analista conseguiria prever, dois meses atrás, que o aiatolá Ali Khamenei seria morto e que o conflito escalaria dessa forma”, diz João Ferreira, sócio da One Investimentos.
“Isso muda totalmente o cálculo de alocação e precificação de mercados em geral.”
Ainda, uma reportagem do The New York Times afirmou que agentes da inteligência iraniana entraram em contato indiretamente com a CIA um dia após os ataques, mas as autoridades norte-americanas continuam céticas quanto à possibilidade de o governo Trump ou o Irã estarem preparados para uma redução do conflito no curto prazo. (Com informações da Folha de S.Paulo)