Domingo, 22 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 21 de março de 2026
O presente suspenso no tempo, ancorado apenas nas pessoas ao redor. Uma onda de eletricidade no peito, que aos poucos vai gerando uma alegria intensa por estar vivendo um momento tão singular com seres humanos. Essas são algumas das definições usadas por entrevistados pelo jornal O Globo para a efervescência coletiva um conceito criado pelo sociólogo Émile Durkheim, para descrever o fenômeno do estado de extremo entusiasmo e união entre pessoas reunidas, seja em rituais, celebrações ou eventos comunitários.
Um dos eventos em que é comum ocorrerem relatos desse tipo de sentimento são os shows ao vivo. Isso porque apresentações únicas em grandes estádios e festivais de larga escala já se tornaram um pilar cristalizado do entretenimento brasileiro.
Para Yasmin Massa, de 26 anos, tudo começou quando ela tinha apenas 7 anos de idade. Sua primeira experiência em ver um artista ao vivo foi para assistir ao show da Floribella, personagem principal da novela de nome homônimo.
“Essa sensação de perceber que algo muito especial está acontecendo, na minha experiência, ocorre no momento em que o artista sobe no palco. Você olha para ele, e entende que ele existe mesmo, que não é uma miragem ou um holograma. Ao mesmo tempo, você olha ao redor e vê que está todo mundo reagindo igual, chorando, gritando”, afirma a analista de marketing, que já foi a pelo menos 200 apresentações ao longo da vida.
Larissa Henrique, de 24 anos, que vai a pelo menos três apresentações musicais por ano, relata que, até o momento, a melhor experiência vivida por ela foi vivenciada em um show em que foi sozinha.
“Eu vivi no show do Coldplay, em 2023, uma sensação de conexão muito forte com as pessoas ao meu redor. Foi como se todo mundo ali estivesse compartilhando o mesmo sentimento ao mesmo tempo. É quase como sair um pouco da realidade por algumas horas e só viver a música, a energia e o momento. Você sente uma alegria coletiva, uma leveza e uma liberdade que são difíceis de explicar”, afirma a engenheira agrimensora e cartógrafa.
Efervescência
Em primeiro lugar, o cérebro humano, é, sobretudo, social. Como indica a psicóloga Cristiane Pertusi, doutora em Psicologia do Desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
“Nós temos uma biologia que busca esse tipo de união como se fosse um imã. Quando as pessoas conseguem pertencer a um grupo com um objetivo em comum, como um show, que tem a principal função de fornecer música ao vivo, todos esses cérebros animais em conjunto entram em sincronia”, explica.
A psiquiatra Laiana Quagliato, doutora em Saúde Mental e professora adjunta na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que existe todo um conjunto de reações que fazem com que o cérebro se desconecte do “eu” e passe a registrar uma narrativa compartilhada com outras pessoas. Nesse cenário ocorre um estado específico de reorganização das redes cerebrais.
“É como se a barreira do ‘eu’ com o mundo externo fosse se quebrando, é mais do que algo místico ou patológico. Nós temos uma uma modulação da rede do ‘eu’, a chamada rede de modo padrão (default mode network), que inclui o córtex pré frontal medial, o posterior e lóbulos parietais. Ela é responsável pela autorreflexão, que é como experimentamos nossa narrativa autobiográfica e o nosso pensamento autorreferente. No estado de transcendência, como na efervescência, temos uma redução transitória dessa rede. Isso, por sua vez, diminui momentaneamente a autocrítica e a sensação de fronteiras entre o ‘eu’ e os ‘outros’”, elucida.
Segundo Quagliato, ouvir a música de maneira individual, em casa, gera a ativação do sistema de recompensa do cérebro e dos nossos circuitos límbicos, relacionados com a maneira que interpretamos o mundo.
“Um show vai ter aditivos adicionais, como a sincronização motora (dos movimentos), vocal e respiratória com o grupo todo. É como um ritual coletivo. E existem alguns estudos que mostram que pode ocorrer a sincronização da frequência cardíaca e respiratória entre pessoas que cantam juntas, essas pessoas não estavam em apresentações, mas estavam próximas umas das outras”, destaca.
Pertusi acrescenta que ele tem uma ativação das redes da empatia e da conexão, tem liberação de hormônios como endorfina, dopamina, ocitocina. a ocitocina dá esse prazer, essa euforia que te faz essa percepção profunda e ao mesmo tempo diminuir essa cognição.
“A perspectiva é de que a liberação desses hormônios, considerados positivos, está ocorrendo ao mesmo tempo da formação de memórias. Ou seja, reforçamos essa rede de memórias positivas. Muitas pessoas vivem no piloto automático e viver um estado de euforia, baseado em reações naturais, sem substâncias, certamente é algo benéfico para elas”, observa. (Com informações do jornal O Globo)