Segunda-feira, 31 de agosto de 2026

El Niño já eleva preços de café, cacau e açúcar e deve afetar o desempenho do agronegócio em 2027

Antes mesmo de o fenômeno climático El Niño — que provoca aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico — atingir seu ápice, ele já começa a afetar o preço de commodities agrícolas. A expectativa é que a intensificação dos efeitos comece nos próximos meses, mas o mercado financeiro e o setor agrícola já sentem o impacto. O chamado “prêmio de risco climático” tem antecipado a valorização de commodities, como café, açúcar e cacau.

Levantamento da consultoria StoneX mostra que os contratos futuros de cacau em Nova York acumulam alta superior a 40% desde o início de fevereiro. O movimento é impulsionado pela preocupação com a próxima safra (2026/2027), percepção que ganha força conforme modelos climáticos passam a indicar probabilidade elevada de um El Niño forte. O aumento de preços ocorre mesmo em um período de melhora da oferta de curto prazo e recuperação de estoques, mostrando que o mercado financeiro concentra as atenções nas incertezas climáticas futuras.

Junho foi marcado por chuvas excessivas em importantes regiões produtoras de cacau da Costa do Marfim e de Gana, o que aumentou relatos de enchentes, dificuldades operacionais e pressão de doenças. Isso prejudica a produtividade e reduz o ritmo das vendas antecipadas. A StoneX revisou para baixo a projeção de superávit global de cacau, de 149 mil para apenas 25 mil toneladas, incorporando o risco climático de forma mais incisiva.

Em agosto, os contratos de açúcar em Nova York acumulam alta de 22%, com preço na faixa de 17 a 18 centavos de dólar por libra-peso. No primeiro semestre, o valor estava em 14 centavos. No caso do café, os preços do arábica já subiram 35% e os do robusta, 20% desde meados de junho.

Carolina Giraldo, analista sênior do agronegócio da StoneX, afirma que o El Niño já exerce influência na formação dos preços nas Bolsas de Nova York, antecipando um prêmio de risco climático. No caso do café, embora os efeitos mais severos do El Niño sejam esperados nos próximos meses, mudanças climáticas já são percebidas, com chuvas acima do padrão no cinturão cafeeiro brasileiro. Isso altera a qualidade dos grãos, causando fermentação e dificultando a secagem. E a umidade quebrou a dormência das plantas, antecipando as floradas em Minas Gerais, São Paulo e Bahia.

“O El Niño é um dos fatores que dão sustentação à alta recente nos preços do café. O mercado financeiro se antecipa diante da alta probabilidade de um El Niño forte coincidir com etapas reprodutivas mais sensíveis do cafeeiro. O excesso de umidade causou atraso na colheita, provocou a fermentação dos grãos, dificultando a secagem e prejudicando a qualidade final da bebida, afetando especialmente os cafés especiais”, diz Carolina.

Alimentos

Relatório do Itaú afirma que o fenômeno deve prejudicar a produção agrícola e contribuir para uma queda do PIB agropecuário em 2027. O texto afirma que a cultura do milho deve ser a mais afetada, pois a alteração no regime de chuvas provoca atraso no plantio da soja e reduz a janela ideal para a “safrinha”, a segunda safra de milho. O governo Lula já discute ampliar a compra e os estoques do produto para conter os impactos do El Niño. O Itaú projeta uma retração de 1,3% do PIB da agropecuária, já incorporando uma quebra na produção de milho, com queda de 17% desse volume.

“É uma projeção muito próxima à média observada nos episódios recentes de El Niño forte, quando as perdas foram de 21% entre 2015 e 2016 e 13% entre 2023 e 2024. O milho é a cultura que historicamente mostrou maior vulnerabilidade ao fenômeno”, explica Julia Gottlieb, economista do Itaú Unibanco.

O Itaú projeta inflação de 5,1% em 2026 sendo que 0,3 ponto percentual desse total já corresponde ao efeito estimado do fenômeno.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, reforça que o impacto inflacionário maior, causado pelo El Niño, deve ocorrer em 2027, quando a safra agrícola afetada chegará às gôndolas dos supermercados. Vale projeta que a inflação de alimentos no domicílio pode subir entre 7,5% e 9,5% no ano que vem, com feijão e arroz liderando as altas. Além disso, a seca na Amazônia pode encarecer o frete rodoviário entre 10% e 22%, diz.

Ele pondera, entretanto, que a estrutura produtiva do agro brasileiro mudou nos últimos dez anos, o que deve atenuar os efeitos do El Niño nos preços na comparação com outras vezes que o fenômeno se manifestou. A produção do agro brasileiro migrou do semiárido (região mais vulnerável à seca) para o Cerrado do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (região conhecida como Matopiba) e para o Centro-Oeste. Com isso, na cultura de milho, por exemplo, a sensibilidade da lavoura à seca caiu de 20% em 2016 para 15% hoje. (Com informações do jornal O Globo)

 

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