Sábado, 28 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 27 de março de 2026
Os juros altos provocaram crescimento rápido da dívida pública brasileira que, saindo de um valor inferior a R$ 5 trilhões dez anos atrás, já ultrapassou a marca de R$ 10 trilhões, ou 78,7% do PIB. Essa escalada não ameaça, porém, pagamentos a credores do governo, conforme avaliam especialistas e o próprio Tesouro Nacional.
O diretor de investimentos em renda fixa da Inter Asset, Ian Lima, diz que, mesmo em queda, a taxa de juros incide sobre uma dívida que dobrou de tamanho nos últimos anos. “A despeito de a taxa média cair, o volume total (da dívida) não vai dar muito alívio.”
Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, o custo da dívida segue alto porque, além da Selic em nível elevado, a curva de juros também está pressionada. “Fazendo um déficit primário com custo alto e com crescimento econômico mediano, é difícil reverter essa trajetória.”
O Tesouro ressaltou que o País não corre risco de solvência, já que as regras de ajuste do arcabouço fiscal devem levar à estabilização e, posteriormente, à queda da dívida.
O último Relatório de Projeções Fiscais, baseado no cenário elaborado pela equipe econômica em novembro, aponta crescimento da dívida bruta do governo geral para 88,6% do PIB até 2032, mas em ritmo mais lento, a partir de 2029. A tendência, segundo o Tesouro, é de acomodação, com o endividamento cedendo para 88% do PIB em 2035, último ano do horizonte de projeções.
Economistas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo concordam que, com 96% da dívida do governo federal financiada em moeda local no mercado doméstico, não há risco de o Brasil dar default – deixar de cumprir suas obrigações financeiras. Não se descarta, porém, o risco de, em um cenário extremo, ocorrer o chamado “calote branco”, um ajuste pela via inflacionária, no qual o aumento de preços eleva a arrecadação nominal e, ao mesmo tempo, corrói o valor real da dívida.
Economista da XP Investimentos, Tiago Sbardelotto não acredita, por ora, em problemas de refinanciamento da dívida pública. Porém, pondera, esse cenário pode mudar se a dívida atingir níveis muito elevados, fazendo com que o ajuste fiscal fique cada vez mais custoso. Alguns estudos, cita o economista, apontam um patamar de 120% do PIB como limite. “Mas isso depende de outras condições. Nesse caso, não teríamos um default no estilo clássico, já que a maior parcela da dívida é em moeda local. O risco reside em um ajuste pela via inflacionária.”
Chefe de macroeconomia do ASA e ex-secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt diz que está mais preocupado com os efeitos colaterais do avanço da dívida pública, como a menor disponibilidade de recursos para financiamento do setor privado, o que resulta em juros maiores para investimentos.
Só este ano, a necessidade de captações prevista no financiamento da dívida pública federal é de R$ 1,7 trilhão. “É o Estado competindo com o setor privado pelos recursos da poupança. Quanto maior a dívida, mais o Estado precisa tomar recursos para rolar a dívida. Sobram menos recursos para o setor privado, que passa a ter com isso um financiamento mais caro. Com recurso mais caro, o País cresce menos”, comenta Bittencourt. “Então, eu me preocupo menos com a questão da solvência e mais com os danos ao crescimento econômico de uma dívida desse tamanho.” (As informações são do jornal O Estado de S. Paulo)