Sábado, 15 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 14 de agosto de 2026
O diretor de Fiscalização do Banco Central (BC), Ailton de Aquino Santos, afirmou em depoimento à Polícia Federal (PF) que não adotou o “procedimento padrão” da autarquia na liquidação do Master devido a receios de vazamentos e manteve a informação sobre a liquidação restrita a ele, ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, ao procurador do órgão e ao servidor responsável por executar a liquidação do banco no dia em que foi oficializada.
“Tudo vazava — decisões, análises, votos ainda em fase de minuta — chegando ao conhecimento tanto dos fiscalizados quanto da imprensa”, afirmou Aquino em depoimento sigiloso por videoconferência à PF no dia 25 de maio. O diretor do BC depôs como testemunha e afirmou que o ambiente era “hostil e muito difícil.”
As informações do depoimento foram antecipadas pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. “O depoente e o presidente Gabriel não confiavam em ninguém naquele momento, e que poucas pessoas chegaram a saber da decisão, que nem a própria diretoria do Banco Central sabia, o que é natural em procedimentos dessa natureza, dada a enorme preocupação com o vazamento de informações”, afirmou Aquino na oitiva.
Em seu relato, ele disse também que já havia decidido liquidar o Master quando se reuniu com Daniel Vorcaro em 17 de novembro do ano passado e que só comunicou à diretoria do Banco Central sobre a decisão após a reunião com o ex-banqueiro, que acabou sendo preso naquele dia pela primeira vez ao tentar deixar o país. Em 18 de novembro, a liquidação foi oficializada e, na mesma data, a Polícia Federal deflagrou a operação Compliance Zero.
A PF tomou o depoimento de Aquino no âmbito da investigação envolvendo o ex-chefe do Departamento de Supervisão do BC, Belline Santana, e o ex-diretor de Fiscalização da autarquia, Paulo Sérgio Souza, que foram afastados por ordem do ministro André Mendonça, relator da Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal (STF). A PF identificou que eles teriam recebido recursos de Vorcaro e suspeita que eles teriam atuado para supostamente atender aos interesses do ex-banqueiro na instituição.
Questionado sobre se a desconfiança interna no Banco Central envolveria alguma suspeita sobre os dois servidores, Ailton disse que a preocupação “principal” dele naquele momento seria relativa a vazamentos que ocorriam à imprensa. Aquino afirmou que a identidade do responsável pelos vazamentos nunca foi investigada, devido ao direito ao sigilo das fontes dos jornalistas, mas que esse quadro o levou a manter a decisão de liquidação em um círculo “absolutamente fechado”.
“Em condições normais de um processo de liquidação bancária, o coordenador, o chefe de divisão, o adjunto e o chefe de departamento são previamente informados para que todos se preparem — esse é o procedimento padrão; que, no caso do Banco Master, contudo, somente o diretor, o presidente, o procurador e o responsável pela execução da liquidação no respectivo departamento foram informados, e apenas no dia anterior foi comunicado o servidor Márcio, chefe de divisão e terceiro na linha sucessória”, disse o diretor. Com informações do Valor Econômico.