Segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Entenda como influenciadores eram pagos para atacar o Banco Central

Com base nos dados levantados pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o Estadão elaborou uma linha do tempo para acompanhar a proximidade entre datas e conteúdos dos influenciadores suspeitos de participar do suposto ataque coordenado ( mais informações em quadro nesta página).

Por exemplo, no dia 19 de dezembro, às 19h04, o criador de conteúdo Firmino Cortada, que soma mais de 500 mil seguidores apenas no TikTok, publicou um vídeo comentando a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a liquidação do Banco Master. No vídeo, ele diz que o Banco Central deve ter “autonomia para trabalhar”, mas seguindo as normas estabelecidas pela Corte de contas. Há jurisprudência de que o TCU não tem como atribuição fiscalizar as ações do BC.

O conteúdo contrasta com o perfil habitual de Firmino, que costuma compartilhar mais assuntos envolvendo influenciadores como Virgínia Fonseca e Carlinhos Maia. Em nota, Firmino afirmou que as publicações decorrem de “posicionamento pessoal e independente”, no exercício da “liberdade de expressão”, e negou qualquer vínculo comercial, publicitário ou contratual com o banco ou terceiros interessados.

Outro nome citado no relatório da entidade que representa os bancos é Marcelo Rennó, que se apresenta como especialista em Reels (formato de vídeo curto veiculado no Facebook e no Instagram).

Em seu perfil, ele também costuma comentar assuntos de famosos, como a relação entre Fiuk e o pai, Fábio Jr., a saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro e o fim do casamento de Ivete Sangalo.

Rennó publicou um vídeo sobre o caso em 26 de dezembro e voltou ao tema em 29 de dezembro – essa última postagem é considerada suspeita. Na gravação, o influenciador classifica a decisão do BC como “muito suspeita” e “estranha”. Após a repercussão, publicou outro vídeo negando ter recebido qualquer valor para se posicionar sobre o assunto. A reportagem entrou em contato com o criador do conteúdo, mas até ontem à noite ele não havia respondido.

Páginas de fofoca

O levantamento da Febraban mostra que páginas de conteúdos relacionados a celebridades passaram a veicular posts com informações sobre o Banco Master.

Por trás de uma das páginas, a Alfinetei, estão três sócios ligados a pelo menos cinco empresas formalmente registradas e a uma rede de perfis que soma quase 40 milhões de seguidores.

O principal nome é João Guilherme Chagas Gabriel, sócio-administrador das empresas citadas. Em seu perfil pessoal no Instagram, ele publica fotos de viagens e se apresenta como CEO de seis páginas, embora os registros formais indiquem cinco.

Outro sócio é Marcos Almeida de Lima, também sócio-administrador das empresas ligadas às páginas Alfinetei e Babadeira, que igualmente compartilharam conteúdos sobre a liquidação do Banco Master.

Picos

O levantamento da Febraban indicou que o pico das publicações ocorreu em 27 de dezembro, quando foram registrados 4.560 posts sobre o tema.

Nos dias seguintes, houve uma “redução significativa” no volume. Nas 24 horas até o dia 5 de janeiro, por exemplo, foram contabilizadas 132 publicações, todas provenientes da plataforma X. Em nota, a Febraban afirmou que realiza, de forma periódica, monitoramento de postagens em redes sociais relacionadas à sua atuação e à do setor bancário.

“Nesses levantamentos recorrentes, foi identificado, no final de dezembro, volume atípico de postagens com menções relativas à entidade e seus representantes, referentes ao noticiário sobre liquidação de instituição financeira”, diz a nota. “A Febraban está analisando se as postagens identificadas naquele período caracterizariam ou não eventual ataque coordenado à entidade, sendo que já se observou nos últimos dias uma redução significativa daquele volume atípico.”

Polícia Federal

Com base em material encontrado no celular apreendido de Daniel Vorcaro, quando ele foi preso, em 17 de novembro, ao tentar embarcar para Malta em seu jato particular, a Polícia Federal (PF) diz ter indícios de que ele teria ordenado a ação virtual contra a liquidação de seu banco.

Conforme apurou a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, Vorcaro repassava essas ordens a auxiliares, que não trabalham diretamente no quadro do Master. A defesa dele não se manifestou.

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