Domingo, 18 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 18 de janeiro de 2026
Ele reuniu membros, nervos, músculos – pedaços de carne que pareciam já mortos – e, com relâmpagos artificiais, deu vida ao que jamais deveria habitar o mundo. O morto-vivo se estremeceu em movimentos convulsivos. “Lembra-te de que sou tua criatura; eu devia ser teu Adão, mas sou antes o anjo caído”, disse a criatura com amargura, lembrando ao seu criador, o cientista Victor Frankenstein, que não nascera para agir conforme as expectativas do pai, mas para causar sofrimento a todos – inclusive a si mesmo.
Mais de duzentos anos depois de publicado, Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, o romance de Mary Shelley, segue no imaginário social como se tivesse sido escrito ontem. Mas por quê?
Frankenstein nasceu de um pesadelo e virou um totem da literatura. Shelley inventou um enredo em que façanhas científicas se misturam a elementos góticos e traz em seu centro uma pergunta que a ficção científica viria a repetir por séculos: o que acontece quando o homem ultrapassa o limite de seu poder criador? E o fascínio pelo que é “antinatural”, é claro, continua a ser uma sombra antiga que ressurge a cada nova tecnologia.
O romance introduz alguns dos temas fundamentais da ficção científica: o impacto de descobertas não devidamente ponderadas por cientistas, o pânico moral que acompanha a inovação e a ambiguidade entre o humano e o monstruoso são alguns exemplos. A cada leitura, permanece atual. Quem é, afinal, o verdadeiro monstro? A criatura que busca pertencimento ou os homens que a rejeitam? O livro sugere que a monstruosidade talvez resida na mentalidade provinciana e na crença arrogante de que somos maiores do que tudo.
Tão audaciosa em sua inventividade quanto o próprio cientista, Shelley ainda tem em sua conta o trunfo de vincular Frankenstein a O Castelo de Otranto, a base do gótico construída por Horace Walpole e publicada em 1764, diz Luciana Colucci, professora de estudos literários da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro).
“A escritora manipula elementos como a vilania gótica, na figura de Victor Frankenstein e da criatura morta-viva; o locus horribilis, o ‘lugar horrível’ simbolizado no laboratório, no cemitério e demais cenários macabros; o tempo, no sentido de um segredo nefasto do passado voltar à tona; e o medo da morte, da violência, da marginalização e da noite”, afirma a pesquisadora do gótico literário.
Mary Shelley tinha apenas 18 anos quando escreveu a obra em 1816, o “ano sem verão”, causado pela erupção do monte Tambora na Indonésia e seu decorrente verão frio e chuvoso que afetou duramente a Europa. Durante esse verão, a autora se encontrava na Villa Diodati, na Suíça, acompanhada de seu marido Percy Bysshe Shelley, do poeta Lord Byron e de seu médico, John Polidori. Em uma noite de tempestade, Byron propôs que cada um dos presentes escrevesse uma história de terror. Shelley e Polidori foram os únicos a concluir as suas: Frankenstein e O Vampiro, este outro marco da gótico literário.
A história de Shelley, no entanto, não surgiu apenas do desafio literário, mas também de uma reflexão sobre as descobertas científicas da época, como os experimentos com o galvanismo, e experiências pessoais da autora com perda e sofrimento, como de quatro filhos que teve com Percy e da mãe da escritora, a feminista Mary Wollstonecraft. Frankenstein chegou às lojas anonimamente em 1818.
Shelley era também filha do filósofo William Godwin e cresceu em meio a ideias radicais sobre liberdade, razão e imaginação. Ainda jovem, fugiu com o poeta Percy Bysshe Shelley, com quem teve uma relação intensa e trágica. Sua vida, marcada por luto, deslocamento e rebeldia, atravessa as páginas do livro – uma obra que, como ela própria, rompeu fronteiras e convenções da época. A escritora foi uma mulher incomum em um século que pouco aceitava mulheres pensantes. Não surpreende que tenha criado um romance igualmente incomum, que colocava em questão os limites da ciência e o lugar da própria humanidade.
“O maior legado de Frankenstein é seu caráter atemporal, multifacetado e metaforicamente persistente”, diz Colucci. “O romance toca em feridas muito sensíveis, suscita reflexões filosóficas e morais profundas, como a capacidade egocêntrica do homem de criar monstruosidades para sua própria satisfação hedonista. Criamos e abandonamos perversamente.”
Para o psicanalista Rodrigo Gonsalves, a metáfora vai além do impulso criador — ela também fala do destruidor. “O monstro é o retorno daquilo que foi reprimido, é o produto do desejo e da culpa humanos”, diz o coorganizador dos livros Ensaios sobre Vampiros e Zumbis e Ensaios sobre Mortos-Vivos. Ele causa pavor porque está fora de nosso controle a despeito de o termos criado e fala, portanto, da nossa sombra. “O morto-vivo pede reconhecimento. O que o transforma em assassino é o abandono, a exclusão.” (Com informações de O Estado de S. Paulo)