Sábado, 13 de julho de 2024

Entenda por que querem derrubar do cargo a ministra da Saúde

A ministra da Saúde, Nísia Trindade, está sob ataque. Alvo de cobiça pelo volume de recursos que administra (um orçamento de cerca de R$ 220 bilhões apenas para este ano), o cargo de Nísia fez crescer os olhos do Centrão – sempre voraz, mas ainda mais em ano eleitoral – e de alas do próprio PT, partido do presidente Lula da Silva, especialmente do diretório do Rio, Estado de origem da ministra.

Em que pesem algumas justas críticas que possam ser feitas à gestão de Nísia à frente da Saúde, a ministra tem sido atacada por motivos que dizem muito mais sobre as intenções suspeitíssimas de seus detratores do que sobre sua competência científica e administrativa para estar onde está.

Que fique claro: é de muito dinheiro e poder de influenciar Lula que se está falando. Nem os incuráveis adictos por emendas do Centrão nem tampouco os petistas fluminenses, entre outros, estão interessados, minimamente que seja, em fazer mais e melhor do que Nísia tem feito no Ministério da Saúde.

Se a pasta, hoje, ainda claudica em algumas de suas frentes de atuação, é de justiça reconhecer que, quando chegou a Brasília, a ministra encontrou terra arrasada. A razia promovida pelo governo de Jair Bolsonaro na área da saúde não encontra paralelo em nenhuma outra da administração pública federal – talvez só na seara ambiental os bolsonaristas tenham feito estrago semelhante.

Em meio a essa faina de reconstrução, Nísia tem encontrado resistências de onde menos deveriam partir. Lula pode dizer quantas vezes quiser que “confia” na ministra e que ela “será mantida” no cargo, pois só ele tem a prerrogativa de nomear e demitir ministros – de resto, uma obviedade. Mas suas atitudes não se coadunam com essa confiança. Mais bem dito: Nísia não parece contar com o apoio irrestrito do presidente da República para levar adiante um esforço de moralização do Ministério da Saúde, como ficou claro pela irritação do chefe ao se dirigir a ela, à beira do desrespeito, durante a reunião ministerial realizada há poucos dias.

Como tem sido noticiado, a ministra estaria sofrendo fortes pressões políticas porque não daria vazão à liberação de emendas parlamentares na velocidade exigida pelos glutões da República. Outras críticas pesadas sobre Nísia vieram de Lula, ninguém menos, após a TV Globo exibir uma reportagem sobre o Estado de calamidade em que se encontram os seis hospitais federais no Rio. É curioso que essas pressões tenham aumentado no exato momento em que a ministra, ora vejam, decidiu mexer justo nesse vespeiro.

Até a estátua de Drummond na orla de Copacabana sabe que, ao longo dos anos, a rede de hospitais federais no Rio foi tomada como uma mina de ouro por uma bandidagem multifacetada. Numa espécie de rodízio, quadrilhas ora formadas por políticos locais, ora por milicianos ou traficantes, quando não por consórcios entre dois ou mais desses grupos, têm saqueado o erário por meio de licitações fraudulentas, superfaturamento de insumos médico-hospitalares e realização de procedimentos fantasmas, entre outros malfeitos. Tudo, claro, à custa do bem-estar físico e emocional da população que mais carece de serviços públicos de saúde.

Recentemente, a ministra editou uma portaria que aumentava os poderes do Departamento de Gestão Hospitalar (DGH), responsável pela administração dos hospitais federais – sobretudo o poder de gerir as compras estatais, talvez o maior sorvedouro de dinheiro público dessa rede. O então chefe do DGH, Alexandre Telles, médico da confiança de Nísia, foi exonerado pela ministra no dia 18 passado. Em seu lugar assumiu um quadro do PT fluminense, a ex-deputada Cida Diogo.

São péssimos sinais que Lula dá à sociedade. Nísia, como qualquer outro membro do primeiro escalão do governo, à exceção de Geraldo Alckmin, pode ser demitida a qualquer momento. Porém, pelo que se sabe até agora, essa demissão, caso ocorra, terá sido pela razão errada: a capitulação do governo às chantagens do Centrão, no melhor cenário, ou às pressões do crime organizado, no pior. (Opinião – O Estado de S. Paulo)

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