Terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Entre o Tédio e a Ansiedade: Reflexões de Dois Dias sem Computador

Ficar dois dias sem computador parece, à primeira vista, um contratempo banal. No entanto, para mim, foi quase uma experiência existencial. O teclado apresentou um problema e, aproveitando a pausa forçada, decidi fazer uma limpeza: eliminei programas, aplicativos e arquivos que já não tinham função. O curioso é que esse gesto simples se transformou em um exercício de reflexão sobre o quanto estamos dependentes da tecnologia. A sensação era de que faltava um pedaço de mim. Como trabalhar, interagir, produzir conteúdos, pesquisar e participar de reuniões sem meu notebook?

Essa dependência não é apenas prática, mas também emocional. Escrevi recentemente sobre o tecexistencialismo, uma corrente que busca compreender como a tecnologia molda nossa existência. Trata-se de refletir sobre como os dispositivos digitais não são apenas ferramentas, mas extensões do nosso ser. Quando o computador falha, não é apenas um objeto que se ausenta: é como se parte da nossa identidade fosse suspensa. Outros exemplos desse fenômeno estão em situações cotidianas, como a angústia de perder o celular ou a ansiedade de ficar sem internet.

Nesse contexto, surge também o termo BRAINROT, muito usado entre jovens nas redes sociais. Ele descreve a sensação de estar com o cérebro “apodrecido” pelo excesso de estímulos digitais, seja por vídeos curtos, memes ou conteúdos repetitivos que drenam nossa atenção. É uma espécie de fadiga mental que nos impede de pensar com profundidade. Se o tecexistencialismo nos alerta para a fusão entre tecnologia e identidade, o brainrot mostra o outro lado: a saturação cognitiva que ameaça nossa capacidade de reflexão.

Não é exagero dizer que vivemos uma espécie de delírio coletivo. Já escrevi sobre isso em outra coluna: estamos todos imersos em uma realidade paralela, onde a hiperconexão cria uma bolha de urgência e ansiedade. O mundo digital nos convence de que precisamos estar sempre disponíveis, sempre informados, sempre produtivos. Mas será que essa lógica não está nos afastando de algo essencial?

Minha geração conviveu com o tédio como um problema. Havia momentos de vazio, de espera, de silêncio. O tédio tinha vantagens e desvantagens: por um lado, gerava frustração; por outro, abria espaço para a imaginação, para a criação e até para a contemplação. Hoje, o mal da época parece ser a ansiedade. Os jovens não suportam o vazio, e a ausência de estímulo é rapidamente preenchida por notificações, vídeos e mensagens. O tédio foi substituído por uma hiperatividade mental que, paradoxalmente, nos deixa mais cansados.

Essa experiência de dois dias sem computador me fez perceber que talvez precisemos de uma espécie de desintoxicação digital. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de aprender a usá-la com consciência. Eu, que convivo com a ansiedade, sei que preciso me policiar constantemente. Algumas estratégias ajudam: respirar profundamente, praticar exercícios físicos, estabelecer limites de tempo diante das telas e, sobretudo, aceitar que não precisamos estar conectados o tempo todo.

A questão ética e filosófica que se coloca é: até que ponto estamos dispostos a entregar nossa autonomia à tecnologia? O tecexistencialismo nos lembra que ela já faz parte de quem somos, mas isso não significa que não possamos estabelecer fronteiras. O brainrot nos alerta para os riscos da saturação, mas também nos convida a buscar conteúdos que alimentem o pensamento crítico.

No fim, o que aprendi nesses dois dias é que a ausência pode ser tão reveladora quanto a presença. O vazio tecnológico me obrigou a olhar para dentro, a perceber que minha ansiedade não nasce apenas da falta de tempo, mas também da incapacidade de desconectar. Talvez o maior desafio da nossa era seja justamente esse: reaprender a conviver com o silêncio, com o tédio e com a pausa.

Se minha geração lutava contra o tédio, a atual luta contra a ansiedade. Ambas são faces de uma mesma moeda: a dificuldade de lidar com o tempo. O tédio nos empurrava para a criação; a ansiedade nos empurra para a dispersão. Entre esses extremos, precisamos encontrar um equilíbrio. Porque, no fundo, desintoxicar-se não é apenas desligar o computador: é recuperar a capacidade de existir sem depender de estímulos constantes.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

Contato: rena.zimm@gmail.com

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