Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Entrou em treta? Big techs faturam em cima da vergonha que você passa nas redes

A vergonha sempre foi um recurso valioso para vender produtos, de cremes contra envelhecimento a remédios para emagrecer. Na era das tretas em redes sociais e das indignações medidas por likes, porém, ela virou matéria-prima para as gigantes da tecnologia lucrarem em cima da divisão social e da deterioração da democracia.

É o que afirma a cientista de dados e doutora em Matemática pela Universidade de Harvard Cathy O’Neill. Em seu recém-lançado “A máquina da vergonha” (Rua do Sabão), a americana mostra como a humilhação se tornou um evento global, acompanhado em tempo real por consumidores do mundo todo. As empresas, explica a autora, aproveitam a fragmentação para nos jogar uns contra os outros. Brigas se tornaram um hábito viciante, estimuladas por campanhas irresistíveis aos “guardiões” da moral.

As consequências vão muito além do tempo perdido na frente das telas. A “máquina” está mudando aquilo que aceitamos como verdade, influenciando nossa maneira de pensar e de consumir, e enfraquecendo nossa representação social.

“É exaustivo pensar nisso, mas acho que todos nós experimentamos a sensação de que estamos apenas gritando para o vazio”, diz a americana, de 52 anos, em entrevista por videoconferência.

Qual a sua definição de vergonha?

Vergonha pode parecer um sentimento muito pessoal, uma noção muito íntima. Mas, no fim das contas, a vergonha acontece quando somos punidos por quebrar uma norma social. Ela nos provoca um sentimento de que não estávamos à altura do que é esperado. É uma situação social que nos afeta muito, pois envolve ser aceito pelos nossos pares, nossos colegas.

Por que estamos agora em uma nova era da vergonha?

O cenário se transformou na era das redes sociais. Explico no livro que, no contexto do X (antigo Twitter), as normas podem mudar muito mais rapidamente entre pequenos grupos de pessoas, e isso faz com que eles se afastem de grupos maiores. Quando um grupo decide mudar uma norma, outro pode discordar, o que provoca conflitos constantes e estimula a formação de guardiões dessas normas. E essas pessoas são recompensadas (com visibilidade e monetização) quando envergonham os seus alvos. O que temos que entender é que as redes sociais foram projetadas, mesmo que não intencionalmente, de uma maneira que acentua e enfatiza as nossas diferenças.

Quanto mais envergonhamos os outros nas redes, maior o lucro das big techs?

As brigas e discussões nas redes nunca param porque as redes foram projetadas para isso. Daí a importância de pararmos para pensar o que estamos fazendo quando envergonhamos os nossos alvos. Estamos tentando mudar a maneira como a outra pessoa pensa e se comporta ou estamos apenas sinalizando virtude? O que coloco no livro é que o ecossistema das redes nos direciona para a segunda opção, nos fazendo atacar alvos mais fracos do que nós. Em resumo, estamos envergonhando alguém sem lhe dar chances de se redimir ou melhorar. Ou seja, o objetivo não é mudar uma pessoa, mas torná-la exemplo para as outras: “Não seja como essa pessoa, senão você será envergonhado também.”

No livro, você usa de forma recorrente a expressão “sinalização de virtude”. Como ele se aplica nesse contexto?

Em todas as redes sociais, você se sente recompensado quando acha que foi virtuoso ao exercer sua própria justiça. Porque você está dizendo que conhece as regras e que vai garantir que todo mundo saiba que regras são essas.

A vergonha também pode ser produtiva?

Creio que viveríamos melhor se nos concentrássemos no primeiro objetivo da vergonha, que é tentar fazer uma pessoa específica mudar para melhor. Se você realmente quer fazer isso, não será publicamente, mas sim numa conversa privada. Dessa forma, em vez de fazer um espetáculo de si, como as redes sociais incentivam, você estará persuadindo alguém, individualmente, a mudar seu comportamento. Outra coisa importante é que o seu alvo tenha uma voz. Em vez de atacar pessoas mais fracas, atacar poderosos.

E qual a melhor forma de cobrar uma figura pública?

No livro, dou exemplos de como você pode agir de maneira positiva ao atacar poderosos. Isso requer duas coisas que são incomuns, especialmente nas redes sociais. A primeira coisa é que a pessoa que você está envergonhando realmente tenha a escolha de poder melhorar. Muitos exemplos que temos são de pessoas sendo humilhadas por serem velhas, gordas e outras coisas que literalmente elas não podem controlar. Com tanta coisa para criticar em Donald Trump, qual o sentido de fazer troça do corpo dele? Uma boa maneira de envergonhar alguém em posição de poder é responsabilizar os políticos por suas promessas de campanha, por exemplo.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Variedades

Cirurgia no queixo pode melhorar o nariz; entenda
Maquiadora se transforma em Ana Hickmann e seguidor brinca: “Até o Edu Guedes aprovou”
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play