Terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 27 de janeiro de 2026
As remessas de lucros ao exterior realizadas por empresas que operam no Brasil somaram US$ 18 bilhões em dezembro, o maior volume mensal já registrado na série histórica iniciada pelo Banco Central (BC) em 1995. O movimento ocorreu às vésperas da entrada em vigor de uma nova taxação sobre essas operações e foi divulgado pela autarquia na segunda-feira (26).
O valor enviado ao exterior no último mês do ano passado é mais que o dobro do registrado em dezembro de 2024, quando as remessas totalizaram US$ 8,8 bilhões, evidenciando uma aceleração expressiva no fluxo de recursos para fora do país no fim do período.
A partir de janeiro deste ano, passou a valer a retenção de 10% de Imposto de Renda na fonte sobre todas as remessas de lucros e dividendos ao exterior. A medida foi proposta pelo governo federal e aprovada pelo Congresso Nacional em 2025, como parte do mesmo pacote que instituiu a isenção do Imposto de Renda para trabalhadores com renda mensal de até R$ 5 mil.
Segundo o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, o forte crescimento das remessas pode estar relacionado à antecipação de decisões por parte das empresas diante da mudança tributária. “Há indícios de que companhias tenham optado por antecipar o envio de lucros antes da vigência da nova regra”, afirmou. Rocha ponderou, no entanto, que o movimento também pode refletir resultados financeiros mais robustos das empresas ao longo do ano, em um contexto de atividade econômica considerada resiliente.
Os dados do BC mostram ainda que, em dezembro, as saídas líquidas de lucros reinvestidos alcançaram US$ 11,4 bilhões. De acordo com a autarquia, o valor negativo indica que a distribuição de lucros superou o montante efetivamente auferido pelas empresas no período, reduzindo o nível de reinvestimento no país.
O forte volume de remessas teve impacto direto sobre os investimentos diretos no país (IDP). Em dezembro, o resultado ficou negativo em US$ 5,3 bilhões, contrastando com a entrada líquida de US$ 160 milhões registrada no mesmo mês de 2024. Segundo o Banco Central, trata-se do pior resultado para meses de dezembro em toda a série histórica.
Apesar do dado pontual negativo, técnicos do BC avaliam que o comportamento das remessas não necessariamente sinaliza deterioração estrutural do ambiente de investimentos, mas reflete uma combinação de fatores conjunturais, como mudanças regulatórias, estratégias financeiras das multinacionais e o desempenho das empresas ao longo do ano.
Economistas ouvidos pelo mercado avaliam que o impacto da nova tributação sobre o fluxo de remessas deverá ser observado ao longo de 2026, com possível ajuste no ritmo de envio de lucros ao exterior e efeitos ainda incertos sobre a atratividade do país para o capital estrangeiro.