Sexta-feira, 09 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 7 de janeiro de 2026
Como 2026 é ano de eleição, possivelmente a fraude do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) terá lugar de destaque na corrida presidencial. Muitos políticos se beneficiaram do roubo a aposentados. Na verdade, o debate já começou. Basta assistir a uma das sessões da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do INSS para se constatar a polarização política.
Tão logo a PF (Polícia Federal) deflagrou a operação Sem Desconto, e movido pela preocupação de o escândalo minar votos, o presidente Lula (PT) tomou decisões amargas. Afastou aliados políticos. Demitiu o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e pressionou o então Ministro da Previdência Social, Carlos Lupi (PDT), a pedir demissão.
Na sequência, numa espécie de gerenciamento de crise, o governo federal se articulou para que a autarquia transmitisse imagem de diligente e intolerante a fraudes. Rapidamente emplacaram no STF (Supremo Tribunal Federal) um acordo que neutralizou condenações judiciais caras contra o INSS e permitiu indenização parcial célere a quem foi roubado.
Nos meses seguintes, o escândalo provocou mudança — ao menos momentânea — no comportamento institucional do INSS. De repente, há uma preocupação acentuada com a moralidade administrativa. A autarquia se torna implacável com situações que maculem sua imagem, tomando medidas profiláticas.
A Crefisa, que respondia pela folha de pagamento do INSS desde 2019, de uma hora para a outra foi punida. Pouco tempo depois de ganhar um leilão que prometia ganhos ao INSS de ao menos R$ 15 bilhões, em agosto de 2025 a Crefisa foi suspensa dos seus serviços por várias irregularidades, que eram velhas conhecidas dos aposentados.
Com o BMG, o INSS foi bonzinho. Em outubro de 2025, as instituições firmaram acordo para o banco devolver R$ 7 milhões a cerca de 100 mil beneficiários do INSS que sofreram cobranças indevidas em empréstimos consignados. O banco continuou operando.
Na mesma época, o INSS suspendeu a oferta de novos consignados de Facta Financeira, Banco Inter, Cobuccio e Paraná Banco, devido a práticas irregulares, como cobrança de seguro sem autorização. Em novembro, deu uma segunda chance às instituições financeiras.
Em dezembro, foi a vez de o INSS suspender o Agibank de operar créditos consignados devido a graves irregularidades, como celebrar contratos com falecidos.
O pente-fino bancário do INSS reduziu de 87 para 54 o número de bancos que podem fazer empréstimo consignado.
A última que levou uma canetada foi a Provider Soluções Tecnológicas. Com filial em Caruaru (PE), curral eleitoral de Wolney Queiroz, atual ministro da Previdência Social, a empresa desde 2007 administra contrato milionário para operar a Central 135.
A relação entre o dono da Provider, João Luiz Dias Perez, e Wolney Queiroz é motivo de investigação requerida pelo senador Rogério Marinho (PL-RN) que os representou no TCU (Tribunal de Contas da União). O senador alega que a Provider teve acesso privilegiado a informações da licitação.
Em nota, Wolney Queiroz afirma que nunca recebeu doação eleitoral da Provider, que a visita foi na condição de empresa contratada e não houve “tratamento diferenciado ou oportunidade extensível a outros interessados em licitação”. O ministro explica que “não participa da condução de licitações, da gestão contratual nem da fiscalização administrativa dos contratos firmados pelo INSS”.
Acusada de manipular indicadores de qualidade no atendimento aos segurados, a Provider foi instada a ressarcir o INSS em R$ 1,2 milhão, multada em R$ 57 mil e proibida de participar de futuras licitações.
A empresa tem problemas antigos. Há dez anos está em recuperação judicial. O contrato com o INSS a salva da bancarrota.
A companhia tem dois contratos com o instituto para a operação do 135, em duas localidades (Recife e Caruaru), que somam R$ 149 milhões. Em 2025, a empresa ganhou dois lotes de nova licitação por R$ 117 milhões até 2027 e já assinou nove aditivos que periodicamente incrementam cifras milionárias. O repasse mensal dos contratos é de R$ 11,6 milhões.
Esse volume de dinheiro atenuou a crise da terceirizada. A Provider tem lista extensa de credores, responde a infrações no Ministério do Trabalho. Seus funcionários sofrem atraso salarial e recebem abaixo do salário mínimo, o que os deixa sem proteção previdenciária completa.
Em nota, a Provider disse que não há irregularidade, não tem envolvimento político com nenhum partido, é auditada pelo INSS, que os salários dos empregados “são pagos com base no salário mínimo, por hora trabalhada” e que a “presença de um dos sócios da Provider no Ministério da Previdência ocorreu para tratar de questões administrativas”.
Há tempo que o INSS está ladeado de empresas, políticos e gestores contra os quais pesam graves denúncias. Com o escândalo das fraudes e a proximidade da eleição, busca aprimorar a imagem de idoneidade administrativa. (Opinião de Rômulo Saraiva/Folha de S.Paulo)