Terça-feira, 31 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 30 de março de 2026
O crescimento meteórico da BeFly – gigante do mercado de turismo que nasceu durante a quebradeira geral das empresas do setor na pandemia e agregou 36 marcas do ramo – está sob a sombra do escândalo do Banco Master.
Especialmente porque seu modelo agressivo de aquisições foi impulsionado por fundos ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entre eles o B10 e o TT.
A BeFly surge em 2021, quando Marcelo Cohen, dono de uma empresa mineira chamada Belvitur, cujo faturamento girava em torno dos R$ 800 milhões antes da pandemia, anunciou a compra da Flytour. Trata-se de uma das agências de turismo corporativo mais tradicionais do país, que chegou a faturar acima de R$ 6 bilhões, mas sofria um forte endividamento em meio à crise da covid.
Cohen, depois, partiu para a compra de outras empresas, como a Queensberry, referência no turismo de luxo, e a STB, líder no segmento de intercâmbios. A lista de negócios em série do mineiro incluía o hotel de luxo Botanique, em Campos do Jordão, numa associação com Vorcaro.
Já em 2022, Cohen era celebrado como um dos grandes nomes do setor. Nas entrevistas que concedia para explicar o sucesso, projetava faturamento da BeFly acima de R$ 10 bilhões no ano seguinte.
Hoje, enquanto a liquidação do Master e as investigações que levaram à prisão de Vorcaro avançam, o empresário atravessa uma disputa extrajudicial em torno justamente da joia da coroa, a Flytour.
A aquisição da empresa fundada por Eloi D’Avila de Oliveira, figura icônica do mercado de turismo, está em discussão na Câmara de Arbitragem de São Paulo desde dezembro de 2025, após o estouro do escândalo do Master.
Para os 2.300 funcionários e 8 mil clientes corporativos da BeFly e os milhares de passageiros que a holding embarca mensalmente, a pergunta é se a operação turística consegue se descolar das fraudes do banco liquidado.
Por meio de sua assessoria, Cohen informa que o Master “não detinha participação societária na BeFly”. “Sua atuação se deu como parceiro financeiro, por meio de linhas de crédito contratadas para apoiar parte das aquisições realizadas entre 2021 e 2022, em conjunto com recursos próprios gerados pela operação”, diz.
Segundo a nota, a BeFly segue honrando regularmente seus compromissos.
Enquanto Cohen tenta blindar a operação da BeFly da contaminação do escândalo do Master, Oliveira acompanha de Portugal, onde passa uma temporada para tratar questão de saúde em família, o desenrolar do passivo da Flytour, que passou por um processo de recuperação extrajudicial.
A disputa acontece no momento em que as investigações do caso Master passam um pente-fino nos negócios impulsionados pelo capital de Vorcaro, que estendeu seus tentáculos em setores como saúde e mineração.
Há cerca de cinco anos, quando a pandemia devastava o mercado de turismo, a relação entre Oliveira e os novos controladores da Flytour era de gratidão diante da situação pré-falimentar causada pelos prejuízos das viagens canceladas.
Com dívidas de R$ 350 milhões, o fundador da Flytour e gestor do negócio ao longo de cinco décadas viu em Marcelo Cohen e no braço financeiro do Master anjos salvadores.
Na época, Oliveira – o ex-engraxate que ergueu um império com 220 pontos de venda e 3 mil colaboradores – se emocionou publicamente ao dizer que a venda havia salvado seu legado.
Um texto publicado no site da Titan, uma das empresas do grupo de Vorcaro, apresenta a BeFly como um “case de sucesso” e relembra como a holding nasceu.
“Num período de aeroportos fechados e falência de centenas de agências pelo país, Cohen contou com o apoio do Banco Master para manter a Belvitur capitalizada e para empreender uma estratégia de aquisições de agências em dificuldade. Foram cerca de 30 negócios realizados a partir de 2020”, diz o site.
Enquanto todas as empresas do mercado de turismo sofriam na pandemia, Cohen, com a ajuda do Master, engoliu parte importante do mercado.
De acordo com executivos que pediram para não ter seus nomes divulgados na reportagem, desde que o noticiário sobre os desvios do Master veio à tona, a consolidação do setor promovida por Cohen passou a ser vista como uma estratégia injusta com os concorrentes, porque parte dos recursos que impulsionaram a BeFly veio de Vorcaro.
Antes do colapso da instituição financeira, Cohen exaltava o parceiro e financiador, descrevendo sua trajetória com a confiança de quem havia decifrado o código do mercado pós-pandemia. (Com informações da Folha de S.Paulo)