Domingo, 08 de novembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 8 de novembro de 2026
Se a presença digital de crianças e adolescentes é cada vez mais precoce, igualmente precoce precisa ser o acompanhamento e a atuação da escola. A experiência online dos estudantes já atravessa a rotina escolar e, onde há interação, deve haver orientação.
Diante de uma conexão massiva, educar e proteger no ambiente online não é mera escolha pedagógica, mas parte da missão escolar de formar integralmente o estudante para viver em sociedade.
Nesse contexto, a educação digital torna-se essencial em um mundo mediado por tecnologias. Esse conhecimento vai além do domínio de ferramentas: envolve aprender a viver, conviver e se proteger na internet – e é, agora, um direito previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) Computação.
Apenas estar presente na internet não significa estar preparado. O fato de crianças e adolescentes estarem online não garante que saibam lidar com os desafios do ambiente digital, como questões relacionadas à privacidade, reputação, golpes, discurso de ódio, imagens sem consentimento e cyberbullying. Os dados alertam para essa realidade: segundo relatório do Unicef, em apenas um ano, 19% dos adolescentes de 12 a 17 anos no Brasil foram vítimas de exploração ou abuso sexual facilitados pela tecnologia.
O desafio da escola é, portanto, preparar os alunos para vivenciar esse ambiente – e, mais do que isso, preparar também os profissionais responsáveis por orientá-los. Educar para o uso seguro demanda conhecimento, intencionalidade, rotina e corresponsabilidade de toda a comunidade escolar.
Nesse sentido, 75% dos professores ouvidos na pesquisa TIC Educação 2024 afirmam ter abordado temas como cyberbullying, discurso de ódio e discriminação com seus alunos. Já 63% abordaram exposição na internet, assédio ou compartilhamento de imagens sem consentimento. Apesar disso, os dados da TIC Kids Online Brasil 2024 mostram que muitos estudantes sentem que não recebem apoio suficiente: 34% dizem não ter recebido orientação sobre cyberbullying.
Esse cenário evidencia a necessidade de transformar ações isoladas em práticas institucionais. Quando a abordagem do tema depende apenas da iniciativa individual do professor, a resposta da escola acaba se tornando desigual – e a instituição pode, justamente, ser o espaço para ajudar a preencher essa lacuna de orientação e garantir que o acesso à internet venha acompanhado de preparo.
Um dos pilares fundamentais para transformar segurança digital em cultura institucional é a formação de professores. Por estar na linha de frente, o docente pode desempenhar um papel essencial ao reconhecer sinais de sofrimento, isolamento ou queda de rendimento que podem indicar cyberbullying ou outras violências.
A formação continuada ajuda a garantir o treinamento necessário para intervir. A qualificação é capaz de preparar para acolher, escutar sem julgamento, registrar as situações e conduzi-las de forma adequada. É fundamental, também, que abarque os eixos da BNCC Computação, trabalhando temas que possam ser incorporados à prática pedagógica.
Para isso, a formação precisa deixar de ser um evento isolado e passar a fazer parte da rotina da escola, garantindo que toda a equipe saiba como agir antes, durante e depois de desafios digitais – e buscando evitar tragédias. A responsabilidade e o preparo, portanto, não se restringem a quem está em sala de aula, mas também envolvem a instituição.
A gestão pode desempenhar um papel estratégico na institucionalização do cuidado: além de promover a formação e orientar a equipe, pode padronizar respostas, organizar canais e fluxos de registro e comunicação e alinhar a escola ao restante da rede de proteção.
Os desafios digitais, como o cyberbullying e a violência, pedem não só respostas organizadas, mas também uma escola preparada, com professores capacitados tanto para agir diante deles quanto para preparar os alunos para a vida digital. Agir em rede transforma cuidado em procedimento, procedimento em cultura institucionalizada e cultura em proteção de fato.
* Kátia Vielitz, pedagoga e líder de projetos na edtech Codifica