Domingo, 18 de janeiro de 2026

Estudo aponta que a vitamina A pode ajudar o câncer a “se esconder” do sistema imunológico

Pesquisadores da Universidade de Princeton, ligados ao Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, identificaram novos mecanismos pelos quais uma molécula derivada da vitamina A pode enfraquecer a resposta imunológica contra tumores. O composto, conhecido como ácido retinoico all-trans, foi associado à redução da capacidade natural do organismo de combater o câncer e, em determinadas condições, à diminuição da eficácia de vacinas anticâncer consideradas promissoras.

Os resultados foram descritos em dois artigos científicos e ajudam a esclarecer uma controvérsia antiga sobre os efeitos contraditórios dos metabólitos da vitamina A, também chamados de retinoides, na saúde humana. As descobertas também levaram ao desenvolvimento dos primeiros medicamentos experimentais capazes de bloquear a via de sinalização celular ativada pelo ácido retinoico.

Um dos estudos, publicado na revista Nature Immunology, foi liderado pelo pesquisador Yibin Kang e pela doutoranda Cao Fang. A equipe demonstrou que o ácido retinoico produzido por células dendríticas – responsáveis por iniciar respostas de defesa do sistema imunológico – pode reprogramar essas células de modo a induzir tolerância aos tumores. Esse processo reduz significativamente a eficácia das vacinas baseadas em células dendríticas, uma forma de imunoterapia que busca “treinar” o organismo a reconhecer e atacar o câncer.

Os cientistas também relataram a criação e os testes pré-clínicos de um composto, chamado KyA33, que bloqueia a produção de ácido retinoico tanto em células tumorais quanto nas próprias células dendríticas. Em estudos com animais, a substância melhorou o desempenho das vacinas e mostrou potencial como imunoterapia independente.

Um segundo trabalho, publicado na revista iScience e liderado por Mark Esposito, ex-aluno do laboratório de Kang, concentrou-se no desenvolvimento de fármacos capazes de inibir completamente a produção de ácido retinoico e desativar sua sinalização. Apesar de mais de um século de pesquisas sobre retinoides, tentativas anteriores de bloquear essa via de forma segura haviam fracassado. A nova abordagem combinou modelagem computacional com triagem em larga escala de compostos químicos, abrindo caminho para o desenvolvimento do KyA33.

O ácido retinoico é produzido por enzimas da família ALDH1A, frequentemente encontradas em níveis elevados em células tumorais humanas. Uma vez formado, ele ativa receptores no núcleo celular e desencadeia mudanças na expressão gênica. Embora esse processo seja essencial para evitar reações autoimunes, os pesquisadores mostraram que, no contexto do câncer, ele favorece um ambiente de tolerância imunológica.

As células dendríticas têm papel central na defesa contra doenças, pois apresentam fragmentos de proteínas anormais aos linfócitos T, que então passam a destruir células doentes. As vacinas com células dendríticas são produzidas a partir de células imaturas do próprio paciente, cultivadas em laboratório com antígenos do tumor. No entanto, mesmo com avanços na identificação desses antígenos, os resultados clínicos têm sido limitados.

Além disso, o ácido retinoico liberado pelas células dendríticas estimula a formação de macrófagos menos eficazes no combate ao câncer, o que enfraquece ainda mais a resposta imunológica.

Ao bloquear a enzima ALDH1A2, seja por técnicas genéticas ou com o KyA33, os pesquisadores conseguiram restaurar a maturação das células dendríticas e sua capacidade de ativar o sistema imunológico. Em modelos murinos de melanoma, vacinas produzidas com o auxílio do novo composto geraram respostas imunes fortes e específicas, retardando o crescimento dos tumores. Administrado isoladamente, o KyA33 também reduziu o avanço do câncer ao estimular as defesas do organismo.

As descobertas ajudam a resolver o chamado “paradoxo da vitamina A”. Em laboratório, o ácido retinoico pode inibir o crescimento de células cancerosas, alimentando a ideia de que a vitamina teria propriedades anticâncer. No entanto, grandes estudos clínicos indicam que a ingestão elevada de vitamina A está associada a maior risco de câncer, doenças cardiovasculares e aumento da mortalidade. Tumores com altos níveis de enzimas ALDH1A também apresentam pior prognóstico.

“Nosso estudo revela a base mecanicista desse paradoxo”, disse Esposito. “Mostramos que a ALDH1A3 é superexpressa em diversos cânceres para gerar ácido retinoico, mas as células tumorais perdem a capacidade de responder à sinalização dos retinoides, escapando de seus potenciais efeitos antiproliferativos. Enquanto isso, o impacto principal ocorre no ambiente imunológico ao redor do tumor”.

Segundo os pesquisadores, o ácido retinoico atua sobretudo suprimindo a resposta imune no microambiente tumoral, inclusive a atividade de células T que normalmente atacariam o câncer. Em testes com animais, inibidores da ALDH1A3 estimularam respostas imunes intensas contra os tumores, reforçando o potencial terapêutico da estratégia.

“Ao desenvolver candidatos a fármacos que inibem de forma segura e específica a sinalização nuclear da via do ácido retinoico, estamos abrindo caminho para uma nova abordagem terapêutica contra o câncer”, afirmou Kang. (Com informações do jornal O Globo)

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