Quarta-feira, 24 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 23 de junho de 2026
No Brasil, medicamentos da família dos benzodiazepínicos, como clonazepam (Rivotril) e diazepam, fazem parte da rotina de muita gente. Mas quando o uso se prolonga, os riscos começam a aparecer. Além da dependência, pesquisadores investigam se essas medicações podem estar associadas ao desenvolvimento de demências, como Alzheimer.
Nas últimas duas décadas, diferentes estudos têm apontado o possível risco. Um dos trabalhos que ajudou a impulsionar o debate foi publicado em 2014 na revista científica BMJ.
Pesquisadores da Universidade de Bordeaux, na França, avaliaram 8.980 pessoas e observaram que o uso desses medicamentos era mais comum entre as que desenvolveram demência ao longo do estudo.
Mais recentemente, em 2024, um estudo publicado no Journal of Alzheimer’s Disease, que acompanhou cerca de 3 mil idosos sem demência por 9 anos, constatou que os que usavam benzodiazepínicos com frequência ou diariamente tiveram risco 79% maior de desenvolver demência em comparação aos que não usavam.
Como um remédio para ansiedade ou insônia poderia influenciar o risco de demência décadas depois? Ainda não há resposta. Mas uma das hipóteses passa pelo sono. Segundo a neurologista Andrea Bacelar, vice-presidente da Associação Brasileira do Sono (ABS-RJ) e colunista do Pulsa, os benzodiazepínicos alteram a arquitetura natural do sono. O segredo está no neurotransmissor GABA, que reduz a atividade dos neurônios e promover relaxamento. É esse mecanismo que faz com que a ansiedade diminua e o sono chegue. “Mas há um detalhe: adormecer com mais facilidade não significa, necessariamente, dormir melhor”, diz Andrea.
Os “benzos” reduzem o sono profundo, que é o estágio mais restaurador, quando o cérebro consolida memórias, fortalece conexões entre neurônios e realiza processos importantes de manutenção. É também quando entra em ação o sistema glinfático, espécie de “faxina” cerebral. No sono profundo, ele ajuda a eliminar resíduos metabólicos e proteínas que se acumulam ao longo do dia. Entre elas está a beta-amiloide, uma das substâncias associadas ao Alzheimer. “A hipótese é que, ao comprometer repetidamente o sono profundo ao longo dos anos, medicamentos como o Rivotril possam dificultar esse processo de limpeza e favorecer o acúmulo dessas proteínas no cérebro”, diz Andrea.
Há discussão semelhante sobre as drogas Z, grupo que inclui o zolpidem. Embora atuem de forma diferente dos benzodiazepínicos, eles também potencializam a ação do neurotransmissor GABA. Por isso, quando utilizados de forma prolongada ou em doses crescentes, poderiam produzir efeitos parecidos sobre o sono e a cognição.
A neurologista Elisa Resende, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), explica que uma das principais dificuldades é separar o efeito dos medicamentos das condições que levaram à prescrição. “Essas condições, por si só, já podem aumentar o risco de demência”, afirma a médica.
Riscos já conhecidos
Há outros efeitos do uso prolongado dos “benzos” sobre os quais não há dúvida. Com o passar do tempo, o cérebro se acostuma à presença do medicamento e passa a responder menos a ele, exigindo doses cada vez maiores. O mesmo vale para as drogas Z. Em muitos casos, o resultado é a dependência.
A cautela deve ser ainda maior após os 65 anos. Hoje, inclusive, há consenso de que esses medicamentos devem ser evitados nessa faixa etária. O desafio é que muitos idosos chegam aos consultórios usando essas substâncias há 10, 15 ou até 20 anos.