Domingo, 30 de novembro de 2025
Por Redação do Jornal O Sul | 30 de novembro de 2025
A prisão definitiva de Jair Bolsonaro (PL) abriu uma nova frente de batalha pela comunicação na direita, a proteção do legado do ex-presidente e o poder de influenciar tomadas de decisão nas eleições de 2026.
Condenado por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal (SFT), Bolsonaro começou a cumprir a pena de 27 anos e três meses de prisão na terça-feira, 25. Ele está numa cela especial na Superintendência Regional da Polícia Federal, com acesso restrito a visitas e mediante autorização.
Dentro do Partido Liberal e na própria família há diferentes visões sobre como impedir que a voz de Bolsonaro, com acesso restrito ao mundo externo, se enfraqueça e deixe de influenciar a disputa pelo Palácio do Planalto no ano que vem.
Numa reunião feita a portas fechadas e convocada às pressas na segunda-feira, 24, em razão da determinação de prisão preventiva que antecedeu a definitiva, o partido discutiu como manter alinhada a tropa de choque em defesa do líder maior da direita. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), primogênito do ex-presidente, foi ungido o porta-voz oficial do pai.
A decisão do PL de dar o posto de tamanha influência a Flávio contrasta com a avaliação que o irmão Eduardo (PL-SP), autoexilado nos Estados Unidos, faz do poder de todos os membros da família de representar a voz do ex-presidente.
“Enquanto durar a prisão do Bolsonaro, sempre vai haver essa confusão de quem fala por ele, quem fala, quem não fala. Tanto o Flávio como o Carlos, a Michelle, são próximos do meu pai e vão ter acesso a ele. Eu acho importante que sigam tendo essa proximidade pelo ponto de vista principalmente emocional”, declarou Eduardo em entrevista.
O acesso a Bolsonaro é relevante na medida em que o próprio ex-presidente tem sido o avalista das chapas que devem concorrer ao Senado em 2026 — uma espécie de obsessão do bolsonarismo, uma vez que a Casa pode aprovar o impeachment de ministros do STF e dar o troco em Moraes.
Quando em prisão domiciliar, ele vinha articulando, com as lideranças que o visitavam, os pré-candidatos que vão concorrer no ano que vem: ele não abre mão de ter o filho Carlos em Santa Catarina e a esposa Michelle no Distrito Federal.
Na reunião a portas fechadas feita pelo PL na segunda-feira, dois momentos marcaram a disputa interna pela comunicação. Um deles recai sobre a campanha de filiação que a legenda vem colocando em prática, em inserções na TV, no rádio e na internet. Flávio se dirigiu à plateia e perguntou ao marqueteiro do PL, Duda Lima: “Por que o meu pai não está nas inserções?”.
Em outro momento da reunião da segunda-feira, Valdemar elogiou o trabalho que vem sendo feito pela secretária de comunicação, a publicitária Michelle Rodrigues — que comanda as redes sociais da sigla e aposta numa estratégia de santificar a imagem de Bolsonaro diante do desgate pela prisão — e pelos deputados federais Gustavo Gayer (PL-GO) e Nikolas Ferreira (PL-MG).
A campanha de filiação criticada por Flávio vinha causando estresse na cúpula da legenda nos últimos dias. Isso porque ela é veiculada num dos momentos mais críticos do bolsonarismo, com a prisão de Bolsonaro.
A comunicadora bolsonarista Keila Prado, com 312 mil seguidores no Instagram, foi uma das que criticaram publicamente o timing da campanha. Num vídeo visto 157 mil vezes desde sábado, ela questiona o fato de o PL ter investido numa peça institucional em vez de reforçar a defesa do ex-presidente e reforçar a pauta da anistia dos presos do 8 de Janeiro.
“O marqueteiro do partido do Bolsonaro, em vez de usar o tempo que ele tem pra poder colocar na TV que o Bolsonaro tá sofrendo várias perseguições, sabe o que ele resolveu fazer? ‘Filie-se ao PL’. Tu tá da sacanagem? Vocês botaram a gente pra ir pra rua trezentas vezes pra lutar por essa p* da anistia, e agora vocês estão aí fazendo marketing com a desgraça do cara”, afirmou Keila.
Aliados de Duda rechaçam a promoção da imagem do PL em detrimento da de Bolsonaro. Afirmam que a campanha vinha sendo planejada havia quatro meses e começou dias atrás da prisão, em 20 de novembro, portanto não haveria como prever o episódio. Também argumentam que a campanha tem respaldo interno, uma vez que a inserção contou com a participação de Flávio, Michelle, Valdemar e Nikolas, por exemplo.
Um dirigente do PL afirma que a campanha, somada à preocupação dos apoiadores com a prisão de Bolsonaro, foi um sucesso histórico e alavancou as filiações ao partido. O partido diz ter recebido 200 mil pedidos de filiação em dez dias, mais de um quinto de todos os 904 mil filiados atualmente.
O advogado e ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro, Fabio Wajngarten, por sua vez, escreveu numa rede social que iria “acabar com a patifaria” e provar com dados que a campanha pilotada por Duda Lima não trouxe resultados. Com informações do portal Estadão.