Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 20 de janeiro de 2026
A relação entre fé, religião e saúde tem sido objeto de crescente interesse científico nas últimas décadas, com pesquisas acadêmicas buscando entender como crenças e práticas espirituais podem influenciar o bem-estar mental e físico. Embora fé e religião não substituam tratamentos clínicos, evidências sugerem que elas podem funcionar como componentes complementares no enfrentamento de depressão, ansiedade e até processos inflamatórios no organismo.
Estudos epidemiológicos têm indicado que indivíduos com maior envolvimento religioso ou espiritual frequentemente relatam melhores estados de saúde geral e menor risco de mortalidade, mesmo depois de ajustar fatores como estilo de vida e condições socioeconômicas. Parte dessa associação pode estar ligada ao suporte social e às emoções positivas derivadas da participação em comunidades de fé, que podem ajudar a reforçar o sistema imunológico e reduzir a suscetibilidade a doenças crônicas.
Essas influências parecem se manifestar também na redução de marcadores inflamatórios, como interleucina-6 (IL-6) e proteína C-reativa (PCR), que estão associados a doenças cardiovasculares, diabetes e outras condições de saúde adversas. Em uma análise de mais de 2.000 adultos, aspectos como práticas espirituais diárias e o uso da fé para enfrentar dificuldades se relacionaram com níveis mais baixos desses marcadores inflamatórios.
No campo da saúde mental, revisões sistemáticas mostram que a religiosidade e a espiritualidade podem atuar de forma protetiva contra sintomas de depressão e ansiedade, especialmente quando envolvem bem-estar espiritual e estratégias positivas de enfrentamento. Uma meta-análise de estudos longitudinais com jovens apreendeu que maior bem-estar espiritual estava ligado a menores sinais de depressão ao longo do tempo, embora a importância individual da religião, isoladamente, não apresentasse associação consistente com sintomas depressivos.
Pesquisas específicas também têm explorado subgrupos: um estudo com estudantes de medicina e enfermagem no Brasil encontrou que a frequência de participação em serviços religiosos estava associada a níveis mais baixos de ansiedade, sugerindo que a prática religiosa comunitária pode oferecer suporte emocional e social importante. Além disso, evidências recentes de universidades brasileiras indicam que índices mais altos de bem-estar espiritual se correlacionam com menor prevalência de ansiedade entre profissionais de saúde durante períodos de estresse intenso, como a pandemia de Covid-19.
A ciência também examina os mecanismos neurais ligados à experiência religiosa e espiritual. Pesquisas de neuroimagem indicam que práticas como oração podem alterar a atividade em regiões cerebrais envolvidas na regulação emocional, promovendo estados de calma e concentração que favorecem a resiliência psicológica.
Apesar desses achados promissores, especialistas enfatizam que fé e religiosidade não substituem intervenções clínicas baseadas em evidências, como terapia ou medicação quando indicadas. A religião pode funcionar como um recurso adicional, principalmente ao proporcionar sentido de vida, apoio social e estratégias de enfrentamento que ajudam a modular respostas emocionais ao estresse.
Em suma, embora ainda existam lacunas na pesquisa e resultados nem sempre homogêneos, o conjunto de evidências atuais apoia a ideia de que fé e práticas religiosas ou espirituais podem contribuir para a redução de sintomas de depressão e ansiedade e para influenciar positivamente aspectos da saúde física, incluindo processos inflamatórios — especialmente quando integradas a abordagens terapêuticas convencionais.