Terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 23 de fevereiro de 2026

Motoristas aceitam pagar quando há retorno em conservação, segurança e redução de tempo de viagem
A Federação das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Rio Grande do Sul (Fetransul) divulgou os resultados de uma pesquisa inédita sobre a percepção dos usuários em relação aos pedágios nos blocos 1 e 2 de concessões rodoviárias do Estado. O levantamento foi realizado entre 22 e 28 de janeiro de 2026, com 450 entrevistas presenciais em postos de combustíveis de Passo Fundo, Marau, Lajeado, Encantado, Igrejinha e Parobé. A amostra contemplou 70% motoristas de veículos leves e 30% caminhoneiros, garantindo diversidade de perfis e representatividade territorial.
Conservação e segurança acima da tarifa
Os dados revelam que a maior preocupação dos motoristas não está no valor da tarifa, mas na falta de conservação das rodovias, buracos, ausência de duplicação, faixas estreitas, riscos de acidentes e congestionamentos. No bloco 1, 67,2% dos caminhoneiros apontaram esses fatores como prioritários; no bloco 2, o índice chegou a 86,6%. O preço do pedágio foi citado como preocupação principal por apenas 23,7% no bloco 1 e 13,4% no bloco 2.
O que torna o pedágio justo
Para 86,6% no bloco 1 e 84,4% no bloco 2, um pedágio só é considerado adequado quando oferece valor compatível com o serviço, boa conservação da rodovia, maior segurança viária e redução do tempo de deslocamento. Apenas cerca de 15% destacaram a existência de rotas alternativas sem cobrança como fator essencial.
Cobrança proporcional ganha apoio
A maioria dos usuários aceita pagar pedágio desde que haja proporcionalidade ao trecho rodado. No bloco 2, 70,9% concordaram com esse modelo; no bloco 1, o índice foi de 57,1%. Já a rejeição total ao pagamento foi maior no bloco 1 (42,9%) do que no bloco 2 (29,1%).
Aceitação cresce quando há melhorias visíveis
Outro dado relevante é que 44,2% dos motoristas do bloco 2 e 16,4% do bloco 1 afirmaram estar dispostos a pagar quando percebem contrapartida clara em manutenção e melhorias. No entanto, 77,6% no bloco 1 e 50% no bloco 2 ainda rejeitam a cobrança, reflexo da percepção histórica negativa sobre modelos anteriores de concessão.
Divisão sobre custeio da infraestrutura
Ao pensar em uma viagem de 100 km em rodovia pedagiada, 49% dos usuários do bloco 1 e 66,3% do bloco 2 afirmaram que é justo custear investimentos em infraestrutura e ampliação da malha rodoviária. Já 51% no bloco 1 e 33,7% no bloco 2 rejeitam a cobrança, evidenciando a divisão de opiniões.
Projetos de concessão: revisão, não cancelamento
Sobre os projetos em curso no RS, apenas cerca de 31,5% no bloco 1 e 24,7% no bloco 2 recusam totalmente as iniciativas. A maioria defende revisão das tarifas para adequação econômica, sem rejeitar a necessidade de investimentos. Isso mostra que os usuários não pedem cancelamento, mas correção do modelo tarifário para que seja compatível com a realidade produtiva gaúcha.
Considerações da Fetransul
Para o presidente da Fetransul, Francisco Cardoso, os resultados confirmam que o transportador aceita pagar quando há retorno operacional mensurável. “Com mais segurança e menor tempo de viagem é possível reduzir custos, aumentar a eficiência e contribuir com o meio ambiente. O usuário deixa claro: não quer pagar por um pedágio sem contrapartida, mas aceita quando percebe melhoria real”, destacou.
Cardoso reforça que o debate precisa sair da tarifa e avançar para o resultado entregue. “O modelo do bloco 1 precisa ser aperfeiçoado para ganhar legitimidade social. Não é apenas uma posição da Fetransul, mas uma demanda expressa dos próprios usuários. O que se pede não é cancelamento, mas correção econômica e técnica do modelo”, afirmou.
Impacto econômico e histórico das concessões
A pesquisa também reforça que tarifas mal calibradas podem encarecer o custo logístico gaúcho, afetando diretamente setores como o agronegócio e a indústria. A rejeição maior no bloco 1 reflete experiências anteriores de concessões consideradas caras e pouco transparentes, o que explica a resistência mais elevada. Já no bloco 2, a percepção é menos negativa, indicando que ajustes no modelo podem ampliar a aceitação social e econômica.(por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)