Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 21 de janeiro de 2026
Em meio ao furor de pedidos de ressarcimento ao FGC (Fundo Garantidor de Créditos) após a liquidação extrajudicial do Banco Master, muita gente descobriu, na marra, uma regra básica do mundo dos investimentos: proteção não é detalhe, é critério de escolha.
O noticiário repetiu o número: a garantia do FGC pode indenizar até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado financeiro, somando o valor aplicado e os rendimentos até a data do evento. E existe um teto global adicional: no conjunto de pagamentos, o limite é de R$ 1 milhão por CPF/CNPJ a cada período de quatro anos. Só que a pergunta que importa vem antes do susto: quando você investe, você verifica se o produto escolhido é elegível à garantia do FGC e se você não está concentrando tudo no mesmo lugar?
O FGC é um fundo mantido pelas próprias instituições financeiras associadas, criado para proteger depositantes e investidores em alguns produtos específicos, dentro de regras bem claras. E nem tudo entra nessa lista. Em geral, estão cobertos depósitos à vista e poupança, além de produtos bancários de renda fixa como CDB, RDB, LCI, LCA, LC e LCD. Já outras aplicações comuns do mercado podem não ter essa proteção, e o investidor só percebe a diferença quando a maré vira.
Se você leu até aqui e pensou “eu nunca checo isso”, talvez a discussão seja menos sobre ressarcimento e mais sobre educação financeira. E tem um jeito rápido de medir se você domina o básico. Pesquisadores como Annamaria Lusardi e Olivia Mitchell popularizaram três perguntas simples que viraram um termômetro global da educação financeira, porque testam três pilares: juros compostos, inflação e diversificação.
Mas aqui entra o plot twist: será mesmo que apenas três perguntas são suficientes para definir se alguém tem ou não educação financeira? A resposta é não. Elas não “carimbam” ninguém, só acendem uma luz. E esse é um caminho que ainda está sendo trilhado: quanto mais a gente mede, mais percebe que conhecimento é só uma parte da história.
Então, vamos ao que interessa: as três perguntas (adaptadas). Se você errar alguma, não é fracasso — é mapa do que precisa ajustar. Primeira: se você aplicar R$ 100 a 2% ao ano por cinco anos, você termina com mais do que R$ 102, exatamente R$ 102 ou menos do que R$ 102? (Dica: não é R$ 102; com juros compostos, o valor passa de R$ 110.) Segunda: se o rendimento é 1% ao ano e a inflação é 2% ao ano, daqui a um ano você compra mais, igual ou menos do que hoje? (Dica: se os preços sobem mais do que seu dinheiro rende, você perde poder de compra.) Terceira: comprar ações de uma única empresa é mais seguro do que um fundo de ações? (Dica: ovos na cesta — diversificar reduz o risco de “ficar sem nada”.)
O gabarito importa, mas o que ele revela importa mais. Quem erra a primeira costuma subestimar o efeito do tempo sobre o dinheiro. Quem erra a segunda confunde “render” com “manter poder de compra”. Quem erra a terceira tende a concentrar risco sem perceber. E tudo isso tem a ver com o FGC, porque educação financeira aparece antes da promessa de proteção: ela aparece na escolha do produto, na leitura do emissor, no entendimento dos limites e na decisão de não colocar todos os nossos ovos na mesma cesta.
Se você quiser transformar a manchete em hábito, três atitudes já mudam o jogo. Primeiro: antes de aplicar, confirme se o produto é coberto e qual é o emissor de fato. Segundo: respeite o limite por instituição ou conglomerado, porque “tenho R$ 250 mil garantidos” não significa “posso pôr tudo no mesmo lugar sem pensar”. Terceiro: não trate o FGC como selo de qualidade do investimento; ele é uma rede de proteção, não um atalho para ignorar risco e liquidez.
* Tamara Rosenblum, pesquisadora na área de finanças e aposentadoria