Sexta-feira, 27 de março de 2026

FIMA 2026: resíduos sólidos e saneamento em debate no 14º Fórum Internacional do Meio Ambiente

O 14º Fórum Internacional do Meio Ambiente (FIMA), realizado em Porto Alegre, foi marcado por debates intensos e emocionantes sobre os grandes desafios ambientais da atualidade, com foco especial nos resíduos sólidos e na universalização do saneamento.

Logo na abertura, especialistas da Universidade da República, do Uruguai, apresentaram números que revelam a dura realidade latino-americana: em uma região com 650 milhões de habitantes, apenas 65% têm acesso à água potável e somente 22% contam com esgoto tratado, ou seja, coleta e tratamento adequado dos resíduos líquidos antes de serem devolvidos ao ambiente.

A Associação Interamericana de Engenharia Sanitária e Ambiental reforçou o alerta ao mostrar que diariamente são geradas 541 mil toneladas de resíduos sólidos, enquanto 40 milhões de pessoas vivem sem qualquer serviço de coleta.

A bióloga uruguaia Carla Kruk Gencarelli, autoridade ecológica em seu país, destacou os riscos da falta de saneamento e do tratamento inadequado das águas residuais – efluentes domésticos e industriais que, sem tratamento, contaminam rios e solos. Ela reconheceu avanços recentes no Uruguai, mas criticou a falta de integração entre políticas públicas de saneamento e saúde, áreas que deveriam caminhar juntas.

O segundo painel trouxe emoção ao celebrar o centenário de José Lutzenberger, pioneiro da ecologia no Brasil. A jornalista Lilian Dreyer, biógrafa de Lutz, afirmou que “o tempo de Lutz é agora”, destacando a atualidade de suas ideias. Sua filha, Lara Lutzenberger, presidente da Fundação Gaia, relembrou a infância e juventude do pai, mostrando como sua relação com a natureza moldou sua visão ambiental.

O presidente da ARI, José Nunes, ressaltou a ética de Lutzenberger em sua relação com a imprensa, reconhecendo o jornalismo como instrumento de transformação social. O painel também contou com Diana Melim Werlang, que apresentou os 25 anos da Mostra Lutz, projeto que já envolveu 61 mil estudantes em Garopaba (SC), sensibilizando jovens e famílias sobre sustentabilidade e saneamento.

Nos painéis seguintes, a comunicação foi destacada como ferramenta essencial para a construção de valores sustentáveis, e discutiu-se o crescimento do Litoral Norte do RS, questionando os limites de um modelo de desenvolvimento voltado apenas ao resultado econômico.

Já no quinto painel, o foco foi a Lei dos Resíduos Sólidos e a logística reversa, com atenção especial ao lixo eletrônico – celulares, computadores e eletrodomésticos descartados. Cada brasileiro produz em média 7 kg de e-lixo por ano, e grande parte ainda tem destino inadequado.

A catadora e influenciadora Sirlei Batista de Souza emocionou ao relatar sua trajetória de 26 anos no Centro de Triagem da Vila Pinto, denunciando o sucateamento dos centros de triagem e defendendo políticas públicas voltadas à dignidade e protagonismo dos catadores. O empresário Joelson Orrigo Gonsales, ex-catador, lembrou que o Brasil perde R$ 14 bilhões por ano com materiais recicláveis que acabam em aterros.

Aline Barreto Graebin encerrou o painel alertando para contaminantes que chegam às torneiras e lembrando que nutrientes como o fósforo presente nos esgotos deveriam ser reaproveitados, já que as reservas mundiais podem se esgotar em poucas décadas.

Ao final, ficou claro que o FIMA não é apenas um espaço de debate, mas um chamado à ação. Os números apresentados, as histórias de vida e os projetos inspiradores mostraram que saneamento e resíduos sólidos não são apenas questões técnicas, mas temas vitais para a saúde pública, o meio ambiente e a economia.

Eventos como o FIMA são fundamentais para despertar consciência coletiva e pressionar por mudanças na forma como lidamos com nossos recursos e resíduos. Afinal, o futuro depende da capacidade de transformar conhecimento em políticas efetivas e de valorizar aqueles que, como os catadores, já fazem a diferença todos os dias.

* Renato Zimmermann – desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (rena.zimm@gmail.com)

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