Domingo, 01 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de outubro de 2021
O futebol feminino grita em coro em cantos diferentes do planeta contra assédio moral e abusos sexuais. Nas duas últimas semanas, atletas de diferentes nacionalidades quebraram o silêncio em denúncias com o sentimento de “basta” contra treinadores e dirigentes que passaram do ponto e não deram alternativas para algumas dessas jogadoras não se submeterem a situações constrangedoras para fazer o que mais gostam: jogar futebol.
O grito não foi orquestrado. O movimento nasceu espontaneamente. Denúncias partiram de um dos principais países do mundo, os Estados Unidos, onde atletas como Megan Rapinoe levantam bandeiras há anos e se tornam porta-vozes de grupos contra uma série de comportamentos inadequados, para dizer o mínimo, envolvendo dirigentes e treinadores.
A Federação Americana de Futebol anunciou recentemente a contratação de Sally Yates “para conduzir uma investigação independente sobre as alegações de comportamento abusivo e má-conduta sexual no futebol profissional feminino.” O primeiro passo foi dado. Sally foi procuradora geral interina por pouco tempo no governo Donald Trump. Quatro homens do futebol dos EUA são acusados de cometer abusos contra meninas em seus respectivos clubes.
Richie Burke, ex-gerente do Washington Spirit, foi acusado de lançar uma “torrente de ameaças, críticas e insultos pessoais” contra jogadoras, de acordo com reportagem do jornal americano Washington Post. Christy Holly, técnico do Racing Louisville, foi demitido em agosto após acusações de conduta indevida. Farid Benstiti, ex-técnico do OL Reign, de Seattle, também foi forçado a sair do time após uma série de comentários abusivos.
Semana passada, o site The Athletic, após demorada investigação, publicou reportagem em que jogadoras atuais e do passado acusaram Paul Riley, gerente do North Carolina Courage, de abusar emocionalmente delas e “coagi-las a fazerem sexo”. Ele negou, mas foi demitido. O futebol feminino dos EUA é basicamente comandado por homens.
A onda de reclamações e pedidos de respeito também partiu de jogadores de futebol da Venezuela, onde a seleção masculina de Tite jogou nesta quinta-feira (7) pelas Eliminatórias da Copa do Catar. Vinte e quatro atletas, incluindo Deyna Castellanos, uma das melhores do país, acusaram o ex-técnico da seleção de base, o panamenho Kenneth Zseremeta, de abuso sexual.
A notícia caiu como uma bomba no futebol local. “No ano passado, uma das nossas companheiras de equipe nos confessou que tinha sido abusada sexualmente desde os 14 anos pelo treinador”, disse Castellanos, jogadora do Atlético de Madrid, da Espanha, que preferiu não revelar a identidade da colega em questão.
O treinador comandou diferentes seleções de base femininas entre 2008 e 2017. Com ele, a seleção da Venezuela conquistou duas vezes o Campeonato Sul-Americano Sub-17 e se classificou três vezes para a Copa do Mundo da categoria.
Denúncias
Em seus relatos, as jogadoras denunciaram intimidações para que continuassem a jogar. Nas categorias de base, ficar fora da equipe ou ser cortada significa abrir mão do sonho. “Decidimos quebrar o silêncio para evitar que as situações de abuso e assédio, físico, psicológico e sexual provocadas por Zseremeta façam mais vítimas no futebol feminino e no mundo”, completou a jogadora. O caso será investigado. Ecos do pedido de ajuda já chegaram à Fifa.
Os mesmos pedidos de socorro foram ouvidos na Austrália. Neste caso, a Federação de Futebol do país já se comprometeu a abrir investigação após as denúncias de assédio sexual contra as atletas do time nacional. Quem resolveu abrir o jogo foi a atacante Lisa De Vanna, que parou de atuar no mês passado. Ela fez 150 jogos pela seleção. Demorou, mas ela relatou que já foi submetida a ‘comportamentos inadequados’.
De Vanna confessou ter passado por isso no começo de sua carreira, quando era uma menina atrás de um sonho. “Se eu fui assediada sexualmente? Sim. Intimidada? Sim. Se eu vi coisas que me deixaram desconfortável? Sim”, disse a ex-jogadora de 36 anos ao jornal Sidney’s Daily Telegraph. “Em qualquer organização esportiva e em qualquer ambiente, o assédio sexual infantil, o comportamento predatório e a conduta não profissional me deixam doente”, disse.
Brasil
Recentemente, as jogadoras de futebol da seleção brasileira se manifestaram contra o caso de assédio moral e sexual envolvendo ninguém menos do que o presidente da CBF, Rogério Caboclo, para quem todas elas teoricamente trabalham. Liderado por Marta, seis vezes a melhor jogadora do mundo, o time se manifestou publicamente contra qualquer tipo de conduta envolvendo a situação.
“Foi uma decisão em conjunto, a gente tem uma comissão que é muito alinhada com as atletas, liderada por Pia Sundhage, então a gente resolveu mostrar a nossa opinião nesse sentido. Somos obviamente contra qualquer tipo de assédio. Sem fazer pré-julgamentos, os fatos estão aí para serem apurados, mas a gente necessitava mostrar nossa posição”, disse Marta antes da condenação de 21 meses de afastamento do dirigente.
O manifesto foi assinado por todas as jogadoras da seleção e divulgado em suas redes sociais.