Quinta-feira, 08 de janeiro de 2026

Garopaba: onde o mar encontra a educação ambiental

No imaginário coletivo, Garopaba é lembrada por suas praias de águas cristalinas, pelas ondas que atraem surfistas e pelo clima de veraneio que transforma o município catarinense em um reduto turístico. Mas, por trás desse cenário de férias e lazer, existe uma história transformadora: há 25 anos, a cidade abriga um dos programas de educação ambiental mais consistentes do Brasil.

Essa história começa em 1987, quando o engenheiro agrônomo e ambientalista José Lutzenberger fundou a Fundação Gaia, com a missão de promover práticas sustentáveis e regenerativas. Lutzenberger, pioneiro do ambientalismo brasileiro, acreditava que a educação era o caminho para mudar consciências e transformar sociedades. Sua visão encontrou terreno fértil em Garopaba, onde, em julho de 2000, nasceu o Programa de Sensibilização e Educação Socioambiental Prof. José Lutzenberger – Escola Amiga do Ambiente.

O início de uma jornada

O programa surgiu com um objetivo claro: sensibilizar professores, estudantes e famílias sobre questões ambientais locais e globais. Desde o começo, buscou integrar o currículo escolar às práticas de sustentabilidade, valorizando iniciativas que nasciam dentro das próprias escolas. Oficinas, palestras, cursos e atividades práticas passaram a fazer parte da rotina de alunos da educação infantil ao ensino médio.

A proposta não se limita a ensinar conceitos, mas a criar experiências. Crianças participam de atividades lúdicas, jovens se engajam em oficinas interativas e até apresentações no estilo TED Kids ampliam o debate de forma criativa. Aos poucos, a educação ambiental deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar espaço central na vida escolar e comunitária, nesta cidade com cerca de 30.000 habitantes.

A Mostra Lutz: o ponto alto

No coração desse programa está a Mostra Prof. José Lutzenberger – Escola Amiga do Ambiente, conhecida como Mostra Lutz. Criada em 2002, a Mostra tornou-se um encontro anual que, neste ano, ocupou a praça central da cidade, onde as escolas apresentaram os resultados de suas práticas ambientais. Projetos, protótipos e ações comunitárias ganharam visibilidade, transformando o evento em uma verdadeira celebração da cidadania socioambiental.

Além disso, a Mostra conta, a cada edição, com cerca de 15 parceiros, entre eles organizações ambientalistas como o Instituto Australis, a R3 Animal e a Eco Garopaba, além de órgãos como a APA da Baleia Franca e a SEMAE (Secretaria do Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina). Juntos, eles apresentam a um público de aproximadamente 4.000 pessoas práticas e metodologias de educação ambiental aplicadas em nível nacional.

Em novembro de 2025, a 24ª edição reuniu mais de duas dezenas de escolas públicas e privadas, consolidando a mostra como referência em educação ambiental. E o futuro reserva ainda mais significado: em 2026, a 25ª edição da Mostra Lutz coincidirá com o centenário de nascimento de José Lutzenberger, um marco que reforça a atualidade de sua mensagem. Lutzenberger defendia que a ecologia era mais do que ciência — era ética, cultura e responsabilidade. Essa visão, hoje, continua urgente diante das crises ambientais que desafiam o planeta.

A força das parcerias

O sucesso do programa não se explica apenas por sua longevidade, mas também pela rede de parcerias que o sustenta. A Fundação Gaia coordena a metodologia e a pedagogia; o Projeto Gaia Village, em Garopaba, oferece suporte por meio de capacitações e atividades; e a Secretaria Municipal de Educação integra as ações à rede formal de ensino.

Essa tríade garante que a educação ambiental não seja uma atividade isolada, mas parte das políticas públicas locais que atravessam diferentes gestões. O resultado é uma rede de ensino comprometida com práticas ecológicas e uma comunidade que reconhece o valor da sustentabilidade como parte de sua identidade.

Impacto e relevância

Ao longo de 25 anos, o programa envolveu todas as escolas do município e algumas das cidades vizinhas, como Imbituba e Paulo Lopes — totalizando 35 unidades —, centenas de professores e, em números acumulados, 59.208 estudantes diretamente envolvidos em projetos até 2024. Mais do que números, o impacto se traduz em mudanças de comportamento: escolas adotando práticas sustentáveis, famílias refletindo sobre consumo consciente e jovens crescendo com uma visão crítica sobre o futuro do planeta.

Num país onde muitas iniciativas socioambientais enfrentam dificuldades de continuidade, a experiência de Garopaba merece destaque nacional. A Mostra Lutz não é apenas um evento escolar, mas um marco cultural que conecta gerações em torno da responsabilidade socioambiental.

O legado de Lutzenberger

A história de Lutz com Garopaba começou em 1997, quando a família Werlang convidou o professor a visitar uma propriedade de 860 hectares entre a praia da Barra e a praia do Ouvidor, incentivando-os a seguir atuando com responsabilidade ambiental e aprofundando a busca por um projeto voltado ao desenvolvimento sustentável. Lutz forneceu as bases para o que, em 2000, se tornaria o Projeto Gaia Village.

Curiosamente, a última palestra do professor em vida, intitulada “HOMEOSTASE – REQUISITOS DA SUSTENTABILIDADE”, ocorreu em Garopaba, no Projeto Gaia Village, em um engenho de farinha à beira da praia do Ouvidor. Os presentes relatam que havia pessoas penduradas nas janelas e nas vigas do telhado para absorver as palavras do intenso ambientalista. Isso aconteceu em 2002, no encerramento do I Encontro ECOSUST – Rede Ecologia Sustentável, uma imersão de quatro dias que reuniu em Garopaba 210 participantes de diferentes partes do mundo para discutir e vivenciar práticas ambientais.

Celebrar o centenário de José Lutzenberger em 2026 será mais do que uma homenagem: será a reafirmação de que sua mensagem continua viva e necessária. Lutzenberger foi pioneiro ao denunciar os riscos da degradação ambiental e ao propor alternativas sustentáveis muito antes de o tema ganhar espaço nas agendas globais.

Em Garopaba — uma cidade litorânea marcada por suas praias e pela força da comunidade — seu legado se traduz em um quarto de século de práticas concretas que envolvem escolas, professores, estudantes e famílias. Mas há também o anseio de que projetos como a Mostra Lutz possam ser expandidos para outras cidades, multiplicando experiências e inspirando comunidades em diferentes regiões do Brasil a adotar práticas sustentáveis e a construir uma cultura ecológica. É a prova de que sua semente germinou e segue frutificando, inspirando novas gerações a pensar e a agir de forma sustentável.

– Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

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