Terça-feira, 31 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 31 de março de 2026

Parcerias com a Defensoria Pública e novos protocolos fortalecem a rede de proteção e qualificam o cuidado.
Cada número carrega uma história. Em dois anos, 1.959 mulheres buscaram acolhimento na Rede de Assistência Humanizada às Mulheres em Situação de Violência (Re-Humam), criada pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC). São mães, filhas, netas, que encontraram na rede o primeiro espaço de escuta qualificada e apoio para recomeçar.
Os dados foram apresentados em evento que marcou os dois anos da iniciativa. O balanço mostra crescimento de 22% nos atendimentos entre o primeiro e o segundo ano, passando de 884 para 1.075 casos. A violência doméstica segue predominante, representando 52% das situações, com aumento de 19%. Já a violência sexual apresentou salto de 56%, somando 271 registros. “Gostaria de estar aqui para apresentar outros números, mas infelizmente essa não é a nossa realidade. Continuamos necessários, sendo ponte, escuta e acolhimento”, afirmou a coordenadora da Re-Humam, Débora Cristina Abel.
Rede integrada e sede no Cristo Redentor
Criada em março de 2024, a Re-Humam atua em diferentes pontos do GHC: hospitais Conceição, Fêmina, Criança Conceição e Cristo Redentor, além da UPA Moacyr Scliar, Caps, UBSs e serviços especializados. A sede, localizada na sala Elza Soares do Hospital Cristo Redentor, concentra 61% dos atendimentos, seguida pelo Hospital Conceição (15%) e pelo Fêmina (13%). A maior parte das situações envolve violência física (69%), seguida pela sexual (23%).
Parcerias estratégicas
O evento formalizou um termo de cooperação com a Defensoria Pública do Estado, além de protocolos de fluxo com a Corregedoria e a Saúde do Trabalhador do GHC. Para o diretor-presidente do grupo, Gilberto Barichello, é preciso olhar para os impactos que chegam de fora e também para dentro da própria instituição. “Os problemas da sociedade chegam até nós, e o GHC precisa agir diante deles, tanto no acolhimento de quem busca atendimento quanto na construção de políticas internas”, disse.
O defensor público-geral, Nilton Leonel Arnecke Maria, destacou que a parceria evita que as vítimas se percam no percurso entre saúde, assistência e justiça. “A mulher vítima está em uma situação tão grave que não consegue, muitas vezes, percorrer todas as etapas. Esse convênio nos permite unir a rede e garantir que ela seja atendida em todas as dimensões”, afirmou.
A procuradora de Justiça Carla Carrion Frós, coordenadora da Central de Apoio às Vítimas, reforçou: “A rede existe, os serviços existem, mas sem articulação nós não estaremos protegendo essas mulheres.”
Arte e sensibilização
O evento também contou com a exposição “Arrancadas de Nós: histórias que precisam ser contadas”, proposta da deputada estadual Stela Farias. A mostra reúne fotos e relatos de mulheres vítimas de feminicídio, utilizando a arte como ferramenta de sensibilização e enfrentamento.
Debate sobre proteção
Representantes da Segurança Pública, Judiciário e assistência social participaram de painel sobre o ciclo da violência doméstica e os desafios para o rompimento. Foram apresentados fluxos de atendimento e medidas protetivas, além da atuação da Patrulha Maria da Penha e da Sala das Vítimas “Espaço Bem-Me-Quer”.
A juíza Taís Culau de Barros, coordenadora da Cevid/TJRS, destacou: “Sem articulação, não conseguimos garantir proteção efetiva. É no momento de maior fragilidade que muitas mulheres conseguem romper o ciclo da violência.”
Um futuro de fortalecimento
Com quase dois mil atendimentos em dois anos, a Re-Humam se consolida como referência em acolhimento e proteção. O crescimento dos casos revela a urgência de políticas públicas integradas e a necessidade de ampliar a rede. Para o GHC, a meta agora é qualificar os dados, detalhar o perfil das vítimas e avançar em sistemas de busca ativa, especialmente no Hospital Cristo Redentor.
Mais do que estatísticas, a Re-Humam representa histórias de resistência e recomeço. Ao unir saúde, justiça e assistência, o GHC sinaliza que enfrentar a violência contra a mulher exige não apenas acolhimento, mas também articulação institucional e compromisso permanente. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)