Sábado, 31 de janeiro de 2026

Governo aposta em encontro com Trump previsto para março para consolidar avanços, apesar de “imprevisibilidade” da Casa Branca

A expectativa no governo brasileiro é que o próximo encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, previsto para março deste ano, em Washington, funcione como um instrumento de consolidação política e diplomática, mais do que como um gesto simbólico. A leitura em Brasília é de que a reunião deve ter um duplo caráter: consolidar entendimentos já alcançados e, ao mesmo tempo, abrir espaço para parcerias concretas, sobretudo em áreas de cooperação prática.

Integrantes do governo Lula ressaltam, no entanto, que essa aposta convive com uma avaliação crítica sobre a dinâmica da administração Trump, que “impõe limites claros à previsibilidade”. Decisões tomadas no topo frequentemente são tensionadas por disputas internas e pela dificuldade de implementação nos níveis intermediários do governo, o que reduz a capacidade de planejamento e produz resultados parciais e graduais. Ainda assim, o contato direto com Trump segue sendo o principal mecanismo para destravar impasses pontuais e “organizar” a relação bilateral, recolocando temas nos trilhos e estabelecendo diretrizes mais claras para o diálogo.

Desde setembro de 2025, segundo avaliação interna, foi possível alterar de forma significativa a percepção de Trump sobre o Brasil, o que levou à retirada de parte das sobretaxas sobre produtos brasileiros. O país tornou-se, em determinado momento, o principal alvo de um tarifaço que tinha como justificativa o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado.

Ainda assim, permanecem pontos sensíveis — descritos como “problemas remanescentes” — que seguem em negociação. A aposta do Planalto é que a interlocução direta permita avançar na retirada das tarifas que ainda vigoram e fortalecer a cooperação bilateral no combate ao crime organizado, tratado como eixo estratégico da agenda.

Lula pretende viajar acompanhado dos ministros diretamente envolvidos nos temas mais sensíveis, incluindo as áreas afetadas pelo tarifaço, como Fazenda, Itamaraty e Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, além dos titulares da Justiça e da Polícia Federal, na linha da cooperação contra o crime organizado transnacional.

De acordo com auxiliares de Lula, há reconhecimento mútuo de que a relação bilateral contribuiu para remover parte dos entraves, mas ainda será necessário empenho político para eliminar os obstáculos restantes. O governo brasileiro espera que Trump manifeste, na presença de Lula, disposição para avançar nesse sentido.

Eventos externos — envolvendo Irã, Cuba, Venezuela e Ucrânia — podem alterar o contexto até a realização da reunião. A visita ainda não tem data definida, embora a tendência seja que ocorra em março, a depender de ajustes de agenda e da confirmação de disponibilidade por parte do governo norte-americano.

Fevereiro foi descartado devido a compromissos internacionais de Lula, incluindo visitas à Coreia do Sul e à Índia, e o calendário de abril também impõe restrições, com viagem prevista à Alemanha para a Feira de Hannover.

Conselho de paz

No capítulo do conselho de paz proposto por Trump, interlocutores do governo afirmam que Lula apresentou condições claras para uma eventual participação brasileira. O presidente manifestou reservas estruturais à iniciativa, avaliando que o formato concebido tende a aprofundar problemas já existentes no Conselho de Segurança da ONU, ao concentrar ainda mais poder decisório e comprometer a legitimidade do processo. A redução do número de atores e o baixo grau de representatividade — com apenas cerca de 60 países convidados e pouco mais de 20 participantes efetivos — reforçam, na avaliação brasileira, esse déficit.

Diante disso, Lula indicou dois pontos considerados indispensáveis: que o conselho se restrinja ao escopo das resoluções do Conselho de Segurança da ONU, com foco específico na situação em Gaza, e que a Autoridade Palestina seja incluída entre os participantes.

A resposta de Trump, relatam, não foi negativa, mas tampouco implicou compromisso concreto. Ele indicou que refletiria sobre as sugestões.

No governo brasileiro, a avaliação é de que dificilmente o formato será corrigido nos aspectos considerados essenciais. Enquanto essas condições não forem atendidas, a tendência é de cautela, com o Brasil mantendo distância de uma iniciativa cuja legitimidade e efetividade seguem, para Brasília, em aberto. (Com informações do jornal O Globo)

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