Sexta-feira, 09 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 8 de janeiro de 2026
Integrantes do governo brasileiro avaliam que, diante da assimetria de poder global e do enfraquecimento dos mecanismos multilaterais, o principal fator capaz de conter uma escalada mais ampla da política expansionista dos Estados Unidos pode vir do próprio ambiente doméstico americano, hoje marcado por forte polarização política e social. Para diplomatas envolvidos no tema, o cenário aberto pela ofensiva de Washington contra a Venezuela é considerado grave e acende um alerta para o risco de novas investidas dos EUA, não apenas na América Latina.
Segundo esses interlocutores, episódios recentes envolvendo ações do serviço de imigração americano (ICE), como o ocorrido em Minneapolis — quando a cidadã americana Renee Good foi morta a tiros por um agente do órgão —, refletem um ambiente interno cada vez mais tenso. A avaliação é que esse contexto pode gerar pressões políticas internas capazes de limitar uma agenda externa mais agressiva do governo de Donald Trump.
Após a operação militar realizada no último fim de semana, que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, os EUA passaram a detalhar planos para a Venezuela. Entre as medidas anunciadas estão a intenção de assumir o controle das vendas e das receitas do petróleo venezuelano e de orientar diretamente a reorganização econômica e política do país. Para auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a sequência de eventos caracteriza uma intervenção direta e sem precedentes recentes na região.
Nos bastidores, diplomatas avaliam que a ação não deve ser tratada como um episódio isolado. A leitura é que ela se insere em uma estratégia mais ampla, associada a uma nova doutrina de caráter expansionista, que recoloca práticas de viés colonial no centro da política externa americana. Essa postura é descrita por integrantes do governo como um “colonialismo desavergonhado”, marcado pelo controle direto de recursos naturais e pela interferência nos rumos políticos de países considerados estratégicos.
A deposição de Maduro é vista como um precedente de alto risco. Interlocutores do governo classificam o episódio como “perigosíssimo” e alertam que uma resposta fragmentada da comunidade internacional pode normalizar ações que violam a soberania dos Estados e princípios básicos do direito internacional.
O nível de preocupação aumentou após declarações de integrantes graduados da Casa Branca sobre a Groenlândia. A disposição do governo Trump de discutir alternativas para a aquisição do território, que pertence à Dinamarca, reforçou a avaliação de que o caso venezuelano extrapola a América Latina e aponta para um padrão de atuação com implicações globais.
A estratégia brasileira para lidar com o novo cenário já começou a ser discutida. Lula tratou do tema nesta semana com o chanceler Mauro Vieira e pretende iniciar uma rodada de contatos com outros líderes internacionais para articular uma defesa coordenada da soberania, do multilateralismo e das normas internacionais.
Desde o início da semana, Vieira manteve conversas com autoridades diplomáticas de diversos países e organismos internacionais, incluindo Canadá, México, França, África do Sul, Colômbia, Noruega, Espanha, Países Baixos, União Europeia e Organização dos Estados Americanos (OEA).
A posição oficial do governo brasileiro foi divulgada no último sábado, quando Lula condenou a ação americana e a captura de Maduro e de sua esposa, que deverão ser julgados nos Estados Unidos por acusações de narcotráfico e outros crimes. Integrantes do governo ressaltam que a postura mantém coerência com posições adotadas em outras crises recentes, como a condenação da invasão da Ucrânia pela Rússia e a atuação diplomática para conter tensões entre Venezuela e Guiana.