Terça-feira, 18 de junho de 2024

Guerra na Ucrânia: saiba por que o mundo precisa dos grãos vendidos pelo país

Rússia e Ucrânia chegaram a um acordo, mediado pela Turquia e a Organização das Nações Unidas (ONU), para reabrir os portos ucranianos no Mar Negro e permitir o transporte de grãos para o resto do mundo.

As negociações levaram dois meses e também incluem a liberação das exportações russas de grãos e fertilizantes – o Brasil importa 85% do insumo, e a Rússia responde por 23% dessas importações.

Um bloqueio imposto pelo governo russo ao funcionamento dos portos da Ucrânia durante a invasão ordenada por Moscou fez disparar os preços dos alimentos no mundo.

Produtos começaram a faltar nas prateleiras, principalmente nos países mais pobres. Cerca de 20 milhões de toneladas de grãos destinados à exportação estão retidos no país.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse que esse montante pode subir para 75 milhões de toneladas após a conclusão da safra deste ano.

A guerra em curso também levará à redução da safra ucraniana.

Cerca de 30% de 86 milhões de toneladas de grãos que a Ucrânia normalmente produz não serão colhidas, diz Laura Wellesley, especialista em Segurança Alimentar do centro de estudos em assuntos internacionais Chatham House.

Os principais importadores dos grãos ucranianos são países em desenvolvimento: Egito, com 3,62 mihões de toneladas em 2021, seguido por Indonésia, Bangladesh, Turquia e Iêmen.

Escassez de grãos

A Ucrânia é o quarto maior exportador de grãos do mundo. Produz 42% do óleo de girassol do mundo, 16% do milho e 9% do trigo.

Além disso, as remessas de trigo da Rússia – o maior exportador mundial – tiveram queda.

As sanções impostas por potências ocidentais não têm a agricultura russa especificamente como alvo – navios russos que transportam produtos agrícolas não estão impedidos de entrar nos portos da União Europeia.

Mas o Kremlin argumenta que elas prejudicaram as exportações com a elevação das taxas de seguro e barreiras para os pagamentos.

A Ucrânia e a Rússia fornecem mais de 40% do trigo da África, diz o Banco Africano de Desenvolvimento.

Mas a guerra foi responsável por uma escassez de 30 milhões de toneladas de alimentos no continente. Isso contribuiu para um reajuste de 40% nos preços de comida.

Na Nigéria, o aumento de produtos como marcarrão e pão chegou a 50%.

O Iêmen, um país que enfrenta uma crise humanitária, normalmente importa mais de 1 milhão de toneladas de trigo por ano da Ucrânia.

A queda na oferta da matéria-prima entre janeiro e maio fez o preço da farinha no Iêmen subir 42% e o pão, 25%, diz a ONU.

Na Síria, outro grande importador de trigo ucraniano, o preço do pão dobrou. Os preços internacionais do trigo caíram após a notícia do acordo.

No entanto, Laura Wellesley diz que as remessas de grãos liberadas dos portos da Ucrânia precisam ser significativas para aliviar a situação de muitos países do Oriente Médio e da África.

“Isso aumentaria ainda mais o preço do pão nesses países, o que causaria uma grande agitação social”, diz ela.

Corredor marítimo

A Turquia, junto com a ONU, negociou um acordo com a Rússia e a Ucrânia para abrir um “corredor marítimo” no Mar Negro.

O seguro dos navios de carga que utilizam o corredor marítimo disparou depois que a Rússia invadiu a Ucrânia. Algumas empresas cobram 5% ou 10% do valor do navio por uma única viagem no Mar Negro, segundo David Osler, da Lloyds List.

Se a Ucrânia escoltar navios pelas áreas minadas, os custos do seguro podem cair. “Eu não acho que vão impedir de transportar grãos da Ucrânia para onde é necessário”, diz Osler.

Antes da guerra, a Ucrânia enviava mais de 90% de suas exportações de alimentos por mar. Com os portos bloqueados, o país vem tentando exportar o máximo que pode por via terrestre, usando caminhões e trens.

A União Europeia estabeleceu “rotas de solidariedade” para que os grãos da Ucrânia possam ser enviados dos portos do Mar Báltico e da Romênia.

No entanto, um grande problema é que os trilhos de trem da Ucrânia são mais largos do que os do resto da Europa. Isso significa que os grãos serão descarregados de um conjunto de vagões em sua fronteira e recarregados em outros.

Os grãos levam até três semanas para cruzar a Europa e chegar aos portos do Báltico.

A Associação Ucraniana de Grãos diz que apenas 1,5 milhão de toneladas de grãos por mês foi exportada – antes da guerra, esse montante chegava a 7 milhões de toneladas.

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