Sexta-feira, 20 de março de 2026

Havia mais de uma pedra

Há décadas um hábito me acompanha: sempre tenho comigo ao menos um livro para fazer-me companhia nas horas vagas — que, na maioria das vezes, são apenas alguns minutos. Mesmo tendo um punhado de e-books no celular, ainda continuo tendo sempre em mãos um ou dois títulos para aproveitar bem as migalhas de tempo que a rotina do dia a dia sempre me regala e que, sem a menor cerimônia, procuro aproveitar ao máximo.

Tento seguir à risca uma regra simples: a ocasião faz quem a gente quer ser, sempre. Por isso, seja numa aula vaga, no intervalo, durante a aplicação de uma prova (enquanto caminho pela sala, silenciosamente, fico com um olho no livro e com o outro na turma), na fila do correio, no ônibus, na antessala de um consultório médico ou odontológico, enfim, procuro sempre lembrar-me da lição do sociólogo italiano Domenico De Masi: atualmente, o tempo ocioso e livre é abundante em nossa vida; o problema é que ele, o tempo livre, é mal distribuído, mal utilizado e, na grande maioria das vezes, desperdiçado, sem a menor cerimônia, por todos nós.

Tendo isso em vista, como muitas pessoas nesse mundão de meu Deus, tento otimizar o pouco que tenho, sem me entregar a lamúrias sem fim por aquilo que jamais tive (no caso, tempo de sobra). Tento porque, da mesma forma que o tempo ocioso é abundante, também é grande o número de possibilidades que temos ao alcance das mãos para desperdiçá-lo.

Ah! E como é fácil desperdiçar o nosso tempo com passatempos que, com o passar dos dias, vão dilacerando a nossa capacidade de concentração e minando o nosso poder de manter a atenção focada. É muito fácil. E como não sou um sujeito com a mente “blindada”, tal qual o senhor Sherlock Holmes, prefiro me precaver, evitando ao máximo a fadiga propiciada pelo entretenimento vazio. Aliás, creio que muitos devem proceder de maneira similar.

Pois bem, por cultivar esse hábito, em algumas ocasiões, quando estou lendo em algum canto, sou abordado por uma ou outra pessoa — na maioria das vezes crianças e jovens — e, de todas as perguntas e comentários que me são apresentados, há um que é bastante recorrente: a pessoa quer saber por que estou lendo a Bíblia. Quando ouço isso, com um sorriso no rosto, respondo que não estou lendo a Sagrada Escritura e explico que nem todo livro de capa dura é uma Bíblia, da mesma forma que nem todo livro volumoso é um exemplar do Livro Sagrado. Após dizer isso, esclareço que, na verdade, sempre carrego a Sagrada Escritura em meu aparelho celular, junto com um breviário litúrgico. Então, mostro os livros para os infantes, falo um cadinho a respeito dos títulos que estão comigo e sobre os seus autores. Aí é o momento em que seus olhinhos brilham, que a mágica acontece (… ou não), especialmente se a edição da obra é antiga ou em uma língua estrangeira.

Seja como for, penso que é de fundamental importância termos sempre claro em nossa mente que os mesmos instrumentos que podem servir de caminho para a degradação do nosso poder de atenção e para a erosão da nossa capacidade de entendimento podem, também, ser ferramentas muito úteis para nos defender de todo entretenimento massificante e alienante que sitia a nossa alma.

Tudo depende, como sempre, de como nós procuramos aproveitar a vida, se aproveitamos bem o que ela nos regala e, principalmente, do que nós entendemos por aproveitar bem a vida. Tudo depende dos propósitos que dão a nota e o tom que marcam o ritmo do bater do nosso coração.

Dartagnan da Silva Zanela – professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros.

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