Quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 4 de fevereiro de 2026
Um estudo publicado recentemente na revista científica International Society for the Advancement of Spine Surgery apontou que uma técnica minimamente invasiva é eficaz no tratamento de hérnia de disco em pacientes que não respondem ao tratamento conservador, que inclui fisioterapia, medicação e acupuntura. A pesquisa, conduzida por especialistas do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, mostra que o método evitou a necessidade de cirurgia em 86% dos casos analisados.
“É uma técnica com eficácia altíssima, bastante inovadora, e é a primeira vez que alguém descreve isso no mundo com esse objetivo”, afirma o neurocirurgião Francisco Sampaio Júnior, do Hospital Sírio-Libanês e da Rede D’Or, pesquisador principal do estudo e criador da técnica.
A hérnia de disco, também chamada de protrusão discal, é a principal causa de dor ciática e afeta de 1% a 5% da população a cada ano. Foi essa condição que acometeu o cantor Wesley Safadão há alguns anos. Trata-se de uma dor intensa e aguda, que se inicia na região lombar e pode irradiar pela perna, com sensação de queimação. Clinicamente conhecida como radiculopatia lombar, a condição é uma das principais causas de procura por atendimento médico devido à dor e à limitação funcional.
A dor ocorre quando uma raiz nervosa, localizada na base da coluna, sofre compressão ou inflamação. Esse processo inflamatório gera sinais de dor intensos enviados ao cérebro. Quando o organismo não consegue se recuperar sozinho, o tratamento conservador envolve fisioterapia, medicamentos, acupuntura, correções posturais e mobilização articular. Quando essas abordagens falham, as alternativas tradicionais são a cirurgia ou as injeções epidurais, que nem sempre apresentam resultados precisos.
A nova técnica, chamada infiltração epidural transforaminal infraneural com uso de corticosteroides, é indicada justamente para pacientes que não obtêm melhora com o tratamento conservador, desde que não apresentem déficit motor, como fraqueza muscular.
“É indicada para hérnias discais agudas, com dor limitante ou incapacitante, que não tiveram sucesso com o tratamento conservador e que não apresentam déficit motor associado provocado pela hérnia, o que corresponde à grande maioria dos casos”, explica Sampaio Júnior.
No estudo, foram incluídos 99 pacientes submetidos ao procedimento, sendo 45 homens e 54 mulheres.
O método consiste em posicionar o paciente de forma a ampliar o espaço entre as vértebras. Em seguida, com o auxílio da fluoroscopia — um tipo de raio-X em tempo real —, uma agulha especial é guiada com precisão milimétrica por meio do chamado triângulo de Kambin, uma pequena estrutura anatômica que permite acesso direto ao ponto onde o nervo está inflamado. O medicamento anti-inflamatório é então aplicado diretamente no foco da inflamação.
Os resultados indicaram que, seis meses após o procedimento, 85,9% dos pacientes estavam sem dor. Também houve melhora significativa na qualidade de vida, com redução dos níveis de incapacidade. Muitos pacientes deixaram de apresentar limitações severas e conseguiram retomar atividades cotidianas, como caminhar e trabalhar, sem dor.
Por se tratar de uma abordagem minimamente invasiva, o tempo de recuperação é mais curto. Ainda assim, cerca de 14% dos pacientes precisaram recorrer à cirurgia posteriormente.
“O objetivo é tentar evitar a cirurgia, e isso é alcançado em 86% dos casos, uma taxa muito elevada”, afirma o neurocirurgião. “O estudo mostra uma realidade diferente da prática habitual, que costuma indicar cirurgia quando o tratamento conservador falha.”
Hérnia de disco
As vértebras são os ossos que compõem a coluna vertebral e abrigam, em seu interior, o canal por onde passa a medula espinhal. Entre elas, localizam-se os discos intervertebrais, estruturas em forma de anel que funcionam como amortecedores.
A hérnia de disco ocorre quando o núcleo pulposo — material gelatinoso presente no interior desses discos — se desloca para dentro do canal vertebral, comprimindo estruturas nervosas. Mais comum nas regiões lombar e cervical, a condição pode variar conforme a localização e tem causas diversas, como desgaste natural, esforço repetitivo e traumas.
(Com O Globo)