Sexta-feira, 06 de fevereiro de 2026

Imigração no Reino Unido: Os brasileiros que largaram diploma e carreira no Brasil para viver de faxina em Londres

Há um ano, quando a engenheira civil Lívia, 28, deixou João Pessoa (PB), ela acreditava que Londres seria o ponto de virada da sua vida. O recomeço de Lívia veio acompanhado de dificuldades para validar seu diploma brasileiro —um processo que, segundo ela, é “caro e demorado”.

Desde que chegou, passou então a trabalhar de forma irregular, sem visto apropriado e nem contratos formais. Ela diz que está tentando obter permissão para morar e trabalhar em algum país da União Europeia, bloco do qual o Reino Unido não faz mais parte desde 2020, onde ela acredita que pode conseguir a aprovação com mais facilidade.

A brasileira começou trabalhando como faxineira (ou cleaner, em inglês, termo usado para designar profissionais da limpeza no Reino Unido). Segundo entrevistados pela reportagem, é um tipo de trabalho comum para brasileiros morando no país.

“Nunca tinha feito nada manual antes. Foi difícil, mas precisava trabalhar. No começo, senti vergonha. Hoje, só quero estabilidade”, diz Lívia. Ela também trabalhou na limpeza da área de uma piscina de escola, cuidando de banheiros e áreas comuns, secando pisos e mantendo o local em ordem. Para isso, recebia 12,20 libras (R$ 88) por hora. “Era muito cansativo, muitas horas de serviço, mas fisicamente mais tranquilo do que a limpeza de casas”, conta.

O oceanógrafo Wagner, 28, que deixou Porto Alegre há três anos, vive frustrações parecidas. No Brasil, ele fez várias atividades acadêmicas em sua área, mas diz que a carreira não é valorizada no país. “Vim para Londres para conseguir trabalhar, mesmo sem documentação, e pela qualidade de vida”, diz.

Atualmente, ele trabalha em um hotel londrino, por meio de uma agência, e recebe cerca de 2 mil libras (R$ 14,4 mil) por mês. “Considero o salário baixo para o que é exigido. É um trabalho pesado. Tenho dores na lombar e nas mãos, uma rotina intensa, escala 6×1 e cansaço constante”, diz.

As trajetórias de Lívia e Wagner ilustram o que a pesquisadora Claire Marcel, da SOAS University of London, chama de “paradoxo da sobrequalificação migrante”.

Mudança

Em sua tese de doutorado “Navigating Precarity: The Lives of London’s Migrant Cleaners” (Navegando a precariedade: as vidas dos faxineiros imigrantes de Londres, em tradução livre do inglês), Marcel afirma que mesmo aqueles com diplomas universitários enfrentam os mesmos baixos salários, longas jornadas e insegurança que os demais.

Marcel explica que as qualificações obtidas em outros países muitas vezes não são reconhecidas e que o status migratório limita as possibilidades de emprego. A barreira linguística agrava a situação, acrescenta a pesquisadora.

Tânia Tonhati, professora e pesquisadora do departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, explica que casos como os dos dois brasileiros entrevistados pela BBC News Brasil refletem um fenômeno estrutural da imigração brasileira contemporânea.

“Desde os anos 1990, o Reino Unido sempre recebeu imigrantes brasileiros com ensino superior e alta qualificação. O que mudou agora é o contexto”, diz Tonhati, que já realizou pesquisas sobre imigração e a atuação de cidadãos do Brasil no exterior.

“Depois do Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia] e da pandemia, o processo migratório ficou mais restrito e caro. Muitos brasileiros que antes circulavam com passaporte europeu perderam essa facilidade, tornando o recomeço mais precário e, em muitos casos, mais solitário.”

A pesquisadora afirma que um perfil de imigrante comum no Reino Unido é justamente o do jovem com “capital econômico, social e cultural” que aceita empregos temporários —e, muitas vezes, em condições precárias de trabalho— com a esperança de mudar depois.

E acrescenta: “Quase todos os imigrantes, não só brasileiros” passam por essa espécie de “rebaixamento”, em que uma pessoa altamente qualificada ocupa funções abaixo da sua formação. “Não se trata de falta de mérito individual, mas de estruturas que desvalorizam o trabalho migrante”, conclui Tonhati.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, vivem atualmente no Reino Unido 230 mil brasileiros

Deportações

O governo britânico tem intensificado a fiscalização do trabalho irregular. Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Home Office realizou 10.031 operações de fiscalização, um aumento de 48% em relação ao ano anterior. As operações miram situações de trabalho ilegal, mas os dados divulgados não especificam se envolvem trabalhadores britânicos, imigrantes regulares ou irregulares.

No mesmo período, foram registradas 7.130 prisões de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal, 51% a mais que no ano anterior. Londres concentrou 1.786 prisões, seguida por País de Gales e Oeste da Inglaterra (1.196) e Midlands (1.151). (As informações são da BBC)

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