Sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Inadimplência do consignado privado atinge recorde de 10% em julho, aponta Banco Central

A inadimplência no crédito consignado destinado a trabalhadores do setor privado com carteira assinada subiu de 8,7% em junho para 10% em julho, atingindo o maior nível da série histórica iniciada em março de 2011, segundo dados do Banco Central. O percentual considera os empréstimos com parcelas em atraso há mais de 90 dias.

A inadimplência nessa modalidade vem crescendo de forma contínua e acelerada desde novembro do ano passado, quando estava em 5%. O aumento registrado nos últimos meses chamou a atenção do Banco Central pela velocidade acima do padrão observado nas estatísticas de crédito.

“A inadimplência do consignado privado tem crescido de forma acelerada. Bateu o recorde da série em julho, em junho já tinha sido recorde. O crescimento é muito significativo em termos estatísticos, bastante acima do que comumente vemos nas séries das estatísticas de crédito”, afirmou o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha.

Segundo Rocha, parte do aumento está relacionada à própria expansão da modalidade. Em março do ano passado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reformulou o consignado privado para ampliar o acesso aos trabalhadores com vínculo formal pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Antes da mudança, o crédito consignado privado era disponibilizado principalmente a funcionários de empresas que mantinham convênios com instituições financeiras. Como os acordos eram mais comuns entre grandes empresas e bancos, o público com acesso à modalidade era mais restrito.

Com a criação do novo modelo, chamado Crédito do Trabalhador, as concessões cresceram rapidamente. Até fevereiro de 2025, os empréstimos consignados para trabalhadores do setor privado movimentavam menos de R$ 1,5 bilhão por mês. Entre março de 2025 e julho de 2026, a média mensal chegou a R$ 6,6 bilhões, mais de quatro vezes o volume registrado em fevereiro de 2025.

Nos primeiros meses após a expansão do programa, a taxa de inadimplência permaneceu baixa porque, para fins das estatísticas do Banco Central, uma operação só entra nessa categoria quando o atraso ultrapassa 90 dias. Com o passar do tempo, porém, as operações contratadas durante o período de forte expansão começaram a atingir esse prazo, elevando a taxa de inadimplência.

Ao mesmo tempo, o ritmo de novas concessões começou a desacelerar, especialmente ao longo deste ano, embora permaneça em um nível elevado. Esse movimento contribuiu para que a parcela de contratos inadimplentes ganhasse maior peso no estoque de operações.

Outro fator apontado pelo Banco Central para explicar o avanço da inadimplência é a necessidade de adaptação das instituições financeiras ao novo modelo. Como o programa ampliou não apenas o número de trabalhadores com acesso ao crédito, mas também a quantidade de instituições que passaram a oferecer a modalidade, os bancos ainda estão ajustando seus modelos de avaliação de risco.

Rocha afirmou que, neste momento, os dados disponíveis não permitem determinar em que nível a inadimplência do consignado privado deverá se estabilizar.

“Ainda não temos, a partir das estatísticas, uma avaliação sobre o ponto de estabilidade dessa inadimplência do consignado do setor privado”, disse.

O aumento da inadimplência também foi observado no crédito destinado às famílias de maneira geral. A taxa passou de 5,4% em junho para 5,8% em julho, atingindo o maior patamar desde março de 2011.

No crédito livre, modalidade em que as taxas de juros são negociadas entre as instituições financeiras e os tomadores, a inadimplência das pessoas físicas aumentou de 7,4% para 7,8% no período, também alcançando o maior nível da série histórica.

No crédito direcionado, que reúne operações com regras específicas de destinação dos recursos, a inadimplência das pessoas físicas passou de 3% para 3,4%, igualmente atingindo o maior patamar da série.

O aumento da inadimplência das famílias também elevou a taxa geral do sistema de crédito. O indicador passou de 4,6% em junho para 4,9% em julho, o maior nível da série histórica do Banco Central. No crédito livre, a taxa subiu de 6% para 6,4%, enquanto no crédito direcionado avançou de 2,7% para 2,9%.

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