Domingo, 11 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 11 de janeiro de 2026
A primeira instância da Justiça Militar da União em Juiz de Fora (MG) – 4ª Circunscrição Judiciária Militar – condenou o coronel do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, reformado, acusado da prática dos crimes de incitamento à indisciplina, ofensa às Forças Armadas e difamação, em contexto de ambiente político – o oficial seria o ‘mentor’ de um grupo de extermínio autodenominado Comando 4 (Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos). Ele está preso no quartel do Batalhão de Polícia do Exército de Brasília por ordem do Supremo Tribunal Federal no âmbito da Operação Sisamnes – investigação sobre venda de sentenças judiciais.
A pena imposta a Caçadini é de dois anos de reclusão e dez meses de detenção, a ser cumprida em regime inicial aberto, com direito de recorrer em liberdade. O Estadão pediu manifestação do advogado do coronel, Rodrigo Suzana Guimarães. O espaço está aberto.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Militar, o coronel passou a publicar, a partir de janeiro de 2023, conteúdos em redes sociais e grupos de mensagens que, segundo a acusação, incitavam a quebra da hierarquia e da disciplina militares e ofendiam a dignidade das Forças Armadas.
As publicações foram veiculadas, principalmente, em páginas eletrônicas denominadas “Frente Ampla Patriótica”, criadas e administradas pelo próprio réu em plataformas digitais.
Conforme descrito pela Promotoria, os vídeos e mensagens demonstrariam insatisfação do acusado com a atuação das Forças Armadas no contexto do processo eleitoral de 2022 e da posse presidencial ocorrida em janeiro de 2023.
Durante as investigações, além de celulares e computadores, uma agenda manuscrita foi essencial para a Polícia Federal avançar na investigação sobre o grupo de extermínio autodenominado Comando 4 (Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos).
Em meio a anotações, que incluíam até mensagens religiosas devocionais, os policiais encontraram registros sobre reuniões, ‘missões’ e ‘festas’ – senhas que, segundo os investigadores, eram usadas para se referir às execuções.Foi nessa agenda que a PF encontrou menções ao senador Rodrigo Pacheco (PSD-MR), ex-presidente do Senado, e aos ministros Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A caderneta pertence a Caçadini de Vargas, preso em janeiro de 2024, durante uma nova etapa da Operação Sisamnes – juiz corrupto, segundo a mitologia persa -, por suspeita de fazer parte do Comando 4.O nome de Rodrigo Pacheco aparecia próximo aos termos ‘vigilância armada’ e ‘guarda armada’. Em nota, na ocasião em que a PF deteve o coronel do Exército, o senador classificou como ‘fato estarrecedor’ o seu suposto monitoramento pelo grupo de Caçadini.Já os nomes de Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin constavam logo abaixo do termo ‘LIVE’. Caçadini é dono da comunidade Frente Ampla Patriótica, criada após o 8 de Janeiro.
Além de grupos no WhatsApp, havia um canal no YouTube para, segundo o militar, reunir ‘patriotas e conservadores do Brasil’.
O coronel publicou 101 vídeos na plataforma desde então e defendeu abertamente ideias golpistas.
Segundo os investigadores, o grupo demonstrou capacidade de identificação, monitoramento de alvos, agenciamento de pessoal e estrutura operacional, inclusive financeira, ‘a denotar elevado potencial de letalidade’.O grupo entrou na mira da Polícia Civil de Mato Grosso na investigação do assassinato do advogado Roberto Zampieri, em dezembro de 2023. O “lobista dos tribunais”, como Zampieri era conhecido, foi o pivô da Operação Sisamnes, aberta para investigar suspeita de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso e no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Mensagens encontradas no celular de Zampieri levantaram suspeitas da compra de decisões e deram início ao inquérito.
Em gravação analisada, o réu sugeriu que regulamentos militares poderiam ser ‘desconsiderados em determinadas situações’ e que a ‘hierarquia e a disciplina poderiam ser rompidas’, o que, para o Ministério Público Militar, caracterizaria incitação à desobediência e à indisciplina no meio castrense.
Ainda segundo a acusação, em outro vídeo, o acusado conclamou militares da reserva a não comparecerem a atividades oficiais alusivas ao Dia do Veterano, como forma de protesto contra o Alto Comando do Exército.
Na mesma manifestação, ele atribuiu às Forças Armadas suposta covardia e omissão diante dos acontecimentos ocorridos no início de 2023.
A denúncia também menciona mensagens escritas divulgadas nas mesmas páginas eletrônicas, nas quais o acusado afirmou que as Forças Armadas teriam ‘traído o povo brasileiro’ no período compreendido entre o final de 2022 e o início de 2023, associando as instituições militares a uma suposta ruptura com os interesses nacionais.
Os promotores salientaram que as declarações foram feitas com ‘pleno conhecimento’ de que não houve traição ou omissão por parte das Forças Armadas – cujas atribuições constitucionais estão expressamente delimitadas pelo artigo 142 da Constituição Federal, que estabelece como missões institucionais a defesa da Pátria, a garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. Coluna de opinião do portal Estadão (por Fausto Macedo).