Segunda-feira, 20 de maio de 2024

Indulto a pedófilo abala imagem do governo de Viktor Orbán na Hungria

O premiê húngaro, Viktor Orbán, como seus aliados Donald Trump e Jair Bolsonaro, gosta de posar de guardião da direita conservadora e cristã. Capitão da nau iliberal dentro da União Europeia, ele apareceu com destaque no noticiário brasileira na última semana, após dar abrigo a Bolsonaro por dois dias na Embaixada da Hungria em Brasília.

Mas se o cartaz de Orbán com os conservadores segue alto fora da Hungria, dentro de casa ele enfrenta a maior crise desde que chegou ao poder, em 2010. Tudo por causa do indulto a um pedófilo, que abalou suas credenciais de paladino da cristandade.

Há pouco mais de um mês, um advogado – que permanece anônimo – descobriu que um homem, condenado como cúmplice de abuso sexual de menores em um orfanato do Estado, havia recebido um perdão presidencial. A informação, que constava em atas de decisões da Suprema Corte, foi enviada à imprensa.

A notícia abalou o governo. A presidente Katalin Novák renunciou. A ministra da Justiça, Judit Varga, que referendou o perdão, também deixou o cargo. A decisão provocou uma onda de protestos convocados por influenciadores digitais em defesa dos direitos das crianças e contra a pedofilia.

Zoltán Balog, líder da Igreja Reformada da Hungria – a segunda maior do país –, aliado de Orbán, também renunciou ao cargo por ter feito lobby para a concessão do perdão presidencial ao pedófilo, que é identificado na imprensa húngara apenas como Endre K.

O caso se tornou emblemático por conta da defesa da família feita por Orbán, que, segundo críticos, serve como cortina de fumaça para ataque a direitos civis. Uma lei aprovada em 2021, por exemplo, previa aumento de sentenças para pedofilia, mas vem sendo usada para restringir conteúdos com menção à comunidade LGBT+.

Corrupção

A crise provocou desentendimentos dentro do próprio partido de Orbán, o Fidesz. Figura próxima da direção da legenda, o ex-marido de Varga, Péter Magyar, acusou figurões do partido de corrupção, algo incomum nos últimos 14 anos.

Logo que se tornou público, o governo tentou abafar o escândalo. Os principais canais de TV e jornais, controlados pelo governo ou por aliados, ignoraram o tema por alguns dias, até que ele não pôde ser evitado.

Após a renúncia de Novák e Varga, Orbán tentou se distanciar do caso. “Aconteceu o que tinha de acontecer em uma situação como essa. Boas pessoas também cometem erros”, afirmou o premiê.

Mas os protestos não morreram, principalmente na capital Budapeste, e reuniram 50 mil pessoas, um marco importante para um país com pouco menos de 10 milhões de habitantes. “Os protestos mostram uma mobilização que deixa o ambiente virtual e se organiza para pedir uma maior proteção às crianças”, disse a coordenadora do Departamento de Política e Direitos Humanos da Universidade Eötvös Loránd de Budapeste, Alíz Nagy.

Justificativa

As razões para o perdão ao pedófilo permanecem desconhecidas, mas as acusações de corrupção mostram que há descontentamento em diferentes níveis com o governo. “Por enquanto, o escândalo não parece estar perto do fim”, afirma o texto.

Apesar dos protestos, especialistas não acreditam em mudanças substanciais na Hungria. O governo é acusado de minar a democracia, atacar a liberdade de imprensa e aprovar medidas constitucionais que dificultam o acesso da oposição ao poder.

“Se este fosse um governo democrático, provavelmente teria caído com essa crise”, afirma David Magalhães, professor de relações internacionais da FAAP e coordenador do Observatório da Extrema Direita. A Hungria já chegou a ser classificada pelo Parlamento Europeu como uma autocracia e vem caindo em rankings internacionais de monitoramento de níveis democráticos.

Relações

Orbán mantém boas relações com Donald Trump, por quem é citado com frequência durante a campanha presidencial americana. Ele se dá bem também com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. A Hungria foi refratária às sanções impostas aos russos após a invasão da Ucrânia.

O premiê também é próximo de Bolsonaro, que chamou o húngaro de “irmão” durante visita a Budapeste, em 2022. Na semana passada, ao explicar ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, as razões da sua estadia na embaixada da Hungria, Bolsonaro alegou ter “interlocução próxima” com as autoridades húngaras sobre “assuntos estratégicos de política internacional de interesse do setor conservador”.

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